Apr 17, 2007

Stanislau e Mivânia

Hoje posto duas vezes, de duas naturezas. Em homenagem aos meus queridíssimos visitantes, posto por aqui um conto que fiz ainda nos tempos de faculdade (fui contista tardiamente), mas pelo qual tenho uma grande afeição. Um amigo meu, na oportunidade em que lhe mostrei a história, chorou copiosamente, o que me traz lembranças emocionadas até hoje. Versa, ainda que confuso, sobre a natureza do amor e seus confusos atributos. Em homenagem aos meus companheiros de escritos, dentre estes considero quase todos os atuais visitantes, mesmo que digam o contrário, posto no Blog Presença (link ao lado direito), sobre a natureza da inacessível alma dos sensíveis. Agradeço mais uma vez a um dos moderadores deste belíssimo trabalho carioca, o Isaac, por me incluir dentre seus autores e gostaria de aconselhar aos meus seletos leitores, sempre que possam, em dar uma visita a esta iniciativa necessária. Muita poesia a todos nesta semana imensa que se inicia.

Stanislau e Mivânia

Imaginar uma mulher tão bela quanto Mivânia era impossível para Stanislau, que sempre a teve como instância suprema do esforço divino (ou maior peripécia do Diabo). Sempre não, desde que a viu aos doze anos incompletos para ambos, tornou-se outro (como se não nos tornássemos outro a todo tempo), de posse do segredo (se para os segredos há posse), único que o sabe (se a individualidade não invalidasse a condição de notícia compartilhada que compõe os segredos) e relativamente feliz, o que é bom. Importante é que os cachos perfeitos, casualmente equilibrados na região acima da nuca de Mivânia, ditaram-lhe em diante as normas de conduta, de julgamento, de sanidade e do resto, depois que haviam se visto (cabe notar que talvez só Stanislau a tivesse percebido, sem reciprocidade).
Poderia pensar, você, pouco, leitor, que se trata mais uma vez de amor unilateral, gasto e popular, mas garanto-lhe que Mivânia também sofria de grande predileção pelo jovem Stanislau. De fato um pouco mais tarde, aos vinte e cinco anos, ela admirou a figura do jornalista (ele se tornara um por saber que ela comprava jornal toda manhã, não sabia que era para o pai) rico (por saber que toda mulher gosta de um homem rico, nem que seja para demonstrar cavalheirismo ao pagar as contas. Mais pelo gesto, menos pela grana.) que a abordou no balcão de um dos bares do centro de Campinas. Chega de parênteses.
Saíram, se não me engano, umas quatro vezes até começarem a falar em relacionamento sério, em compartilhar os pequenos objetos, não os menores. Não sei se por limitação minha ou sua, sinto-me obrigado a dar-lhe outra explicação: Mivânia não tinha esse oportunismo que você lhe aventa afobadamente. Ela era, sim, uma mulher comum, um pouco medrosa, que se fazia forte aos outros, principalmente aos homens, mas à noite chorava sozinha no quarto que, por mais que pensasse seu, era propriedade inevitável da instituição bancária que emprestara há alguns anos a sua família. Explico-lhe ainda porque pensa dessa forma. Se você, meu leitor, é mulher, afirmo-lhe que as desculpas são absolutamente necessárias para conviver com as outras partes de você que conhece menos. Não há nada de mal em pensar que as mulheres amam, mas essa não é das verdades mais críveis do mundo. Se você, meu leitor, é homem, o sentimentalismo que tanto o acompanha e completa-lhe de um charme sinatriano freqüentemente enublina os fatos que constroem o real e você tende achá-los ligeiramente mais bonitos, quase decifráveis, e também não lhe fará mal ser assim até os sete palmos e meio. Última ajuda: sou narrador e narrador não é homem nem mulher. Estranho, mas oportuno. Vamos, enfim, à história.
Há seis dias Stanislau foi internado com uma dor de barriga aguda e fora de hora. Há cinco, escreveu uma longa carta à Mivânia da qual só temos as últimas linhas que se apresentam: “A morte não bastará para nos separarmos, senão para nos unirmos na única alma (ele escreveu lama, mas corrigimos) que sempre fomos. A ti, o meu amor eterno, Lauzinho”. Há quatro noites, com Mivânia à cabeceira, Stanislau morreu de um oportuno câncer no apêndice. Antes do fim de semana, muitos deixaram o cemitério comentando como foi maravilhosa a cerimônia e como a namorada realmente gostava do finado. Antes de ontem, Mivânia preparou minuciosamente a corda em torno do ventilador de teto (quisera o mais caro na época da compra por já ter pensado em suicídio outras vezes) e despencou deixando cair um certo papel amassado. Na tarde de Domingo, seus pais retornaram de Ubatuba e encontraram o bilhete e o corpo (ordem explicada pela baixa estatura de sua mãe): “Que o amor dos defuntos vá a merda” (sem crase). Penso “são oito e vinte da noite” em como é intrigante atinar para o fato de que nem mesmo os amores perfeitos sobrevivem aos dias de hoje.

2 comments:

daniela said...

Se não houve tantos detalhes insólitos como os nomes das personagens (que moram em Campinas), a morte por câncer no apêndice, o bilhete encontrado antes do corpo por causa da estatura da mãe, e o próprio conteúdo do bilhete, talvez eu tivesse conseguido captar a essência do conto, mas fiquei presa demais aos detalhes. Achei cômico. Não engraçado. Terminei de ler e me veio um riso nervoso, sabe?
Me senti reconfortada ao ver que não sou a única pessoa capaz de escrever frases com mais parênteses do que... do que não parênteses.
Ah, as mulheres amam sim!

Kah said...

Ah, mulheres amam sim, a diferença é que quando amam elas se entregam por inteiro e esperam o mesmo do parceiro, o que quase nunca é real.O conto é lindo,adorei o final, mas acho que amores são todos imperfeitos, pois quem ama é humano, e humanos são imperfeitos.Um beijo grande!!