Apr 13, 2007

Alçadas

Uma das poucas coisas maravilhosas em achar que faço arte é a surpresa guardada quando publicamos ou apresentamos uma obra específica.A interpretação por parte do público acrescenta muitas das partes faltantes presentes no momento de criação. Ainda estranhamente maravilhoso é o fato de que muitas destas partes explicam o autor como indivíduo, trazem à tona lembranças sublimadas, remontam a estilos já abandonados por ele e realmente tornam as relações de sentido presentes na obra muito mais significativas. Esta semana, por exemplo, uma grande amiga utilizou um de meus poemas do "Sintaxe..." (O maior arranjo do mundo) para, paralelamente a um soneto de Camões, discutir com seus alunos o assunto "forma e conteúdo". Um deles, ao ser questionado sobre o que via em meu poema, disse que via (aspas não presenciais) "uma seta para baixo, como se o cara estivesse cada vez mais indo para baixo". Quando o fiz, acrescentei algumas camadas de interpretação, mas não esta. Impressionante como aquele aluno, através de seu tesouro pessoal de experiências, mediante seu espírito (sentido clássico), foi capaz de propor uma interpretação totalmente válida e pessoal. Como eu poderia estar mais maravilhado com a experiência humana de interpretação!? Ah sim, por que este assunto? Por causa do poema "H". As motivações do momento de criação foram tão diferentes da maioria das respostas que tenho do poema que cada vez gosto mais do poema e mais tenho razoáveis certezas de sua eficácia como multiplicador de sentidos, como acrecentador de percepções, cerceando o sutil do real. Espero que não desistam de tecer suas outras verdades ocultas na muticidade da letra agá. Deixo meu poema do arranjo (com a ressalva da forma não poder ser recuperada por limitações bloguianas) a título de ilustração.

O maior arranjo do mundo

Quando não tinha mais nada o que fazer, tomou todas as flores do mundo
e deu a ela. Certo que não lhe cabiam nos abraços cada begônia, lys,
bromélia, rosa, todas as outras vis. Ela soube ganhar o presente.
Retribuiu com beijo breve de mil gametas, fecundado, leve.
Este floresceu no peito infértil do jovem a tarde inteira
e só a noite pôde acalmar o unímpeto da semente.
No dia seguinte, logo de manhã, foi somente
esperando marcar a data que entrariam
no primeiro concurso. Só ela tinha
flores, afinal. Mas encontrou,
no mesmo arranjo: beijo,
outro homem, ela; e
desfez-se baixo,
muito baixo
como a
péta-
la.


P.S.1: É relamente um afago ter este bom número de visitas e, principalmente, comentários. Anne e Kah, já mandei a música.
P.S.2: Uma das partes feitas, vendi o carro.

3 comments:

Tati Bertolucci said...

Algum cantor desses famosos disse uma vez que depois que escreve uma música e a canta pela primeira vez a música deixa de ser dele, e passa a ser de todas as vozes que a cantam repetidas vezes mudando entonações, sentimentos e sentidos...

Kah said...

Nossa, fiquei extasiada com a música toda,letra melodia,tudo.Não tem coisa que mais nos complete do que saber que algo que saiu da gente faça diferenta prá outra pessoa.Parabéns.Espero que ainda tenha muitas interpretações prás tuas poesias.Flores falam por si, melhor ainda quando quem recebe sabe receber.Um beijo e estou adorando te visitar.Obrigada pela música.Lindo final de semana!!

daniela said...

Não sei se gosto mais do poema ou do comentário que o precede. O poema tem a beleza das palavras bem escolhidas e combinadas. O comentário é muito pessoal e mais espontâneo. É isso, gosto dos dois por motivos diferentes.
É dificil colocar em palavras as emoções que esse "post" despertou. Como não tenho o dom da palavra, me limito a agradecer a sensação de que ainda há vida em mim, e de que no mundo ainda há beleza além das crianças.