Aug 2, 2008

Morte e vida severina

Fiquei tão feliz ao ter feito este poema. Rasguei rapidamente a folha de um xerox que tinha espaço em branco e transcrevi duas cópias para amigas que sentam próximo. Acostumadas com minhas brincadeiras, acharam que era alguma traquinagem, que eu estava tripudiando ou algo assim. Talvez também tenha havido um pouco de vergonha da falta do hábito de receber poemas, enfim... Uma delas gostou verbalmente, a outra leu em silêncio cabisbaixo. Ambas exigiram que eu assinasse o presente (assinam-se os demais presentes?).

Não sei se é um presente digno de também oferecer pelo blog. Se não, pela idade, certamente irão ser piedosos comigo. Fiquei tão feliz de ter feito este poema! É um poema que qualquer criança poderia ter feito, qualquer um que se deixasse estar, que estivesse no caminho festivo destes versos. Parece muito meu primeiro poema! Sinal de que estou num bom caminho... Vem-me agora, depois do equilíbrio razoável de um texto introdutório, que se todos lessem poemas com gravidade, cada poeta poderia ficar incumbido de escrever um único poema, um só. Ao longo de toda a vida se debruçaria nele e pronto. Teríamos algumas centenas (exagero? crueldade?) de poemas de uma vida inteira... Imaginem que maravilha!

Ficam as razões de um eufórico sábado à tarde!

o Homem e a Pedra

o desejo é uma pedra jogada para longe
andamos até ela jogamos novamente

envelhecemos

perdemos distâncias e a força
a morte é um último trajeto para perto



p.s.: há uma brincadeira "verbivocovisual" com as palavras "longe" e "perto" que, pelo formato do blog, não puderam ser reproduzidos. Longe, longe do restante do verso. Perto, perto do restante do verso.
p.s.2: Issac, meu caro, não consegui fazer a ótima alteração que propuseste. Ajuda? Arte a todos!

6 comments:

FlaM said...

Muito bom! Parabéns, Guto!
Só queria estar maisperto... e não tão









longe,
bj, f

Carla Soares said...

"andamos até ela jogamos novamente" Adorei! Incrível é essa necessidade inevitável que temos de jogar a pedra novamente...

Beijo

Mimi said...

Guto, achei triste... mais longe que perto.

beijos

Guto Leite said...

Muito obrigado, senhoras, pela presença e pelas críticas. Pelos comentários, acho que consegui mesmo atingir a crueza do pensar-sentir que busquei na composição dos versos... Por favor, sempre perto! Arte!!

Anonymous said...

Gostei!
Poesia é depuração. Um "fazer silêncio por dentro das palavras". É preciso fazer silêncio...só assim o poeta, um dia, voa.
Filipa V. jardim

Então Ramos Rosa leu? Pode ler Herberto Hélder também...

Filipa V. Jardim

Guto Leite said...

Caro Filipa, és sempre bem-vindo por estas linhas e deixas-me muito feliz que te entretenham. Fui em busca do poeta que indicaste e nada, não encontrei. No fim de semana próximo, irei numa livraria maior, aprimorar minha procura. Sobre Hérberto Helder, é um poeta sublime! Para mim, dos melhores dos últimos tempos, ao lado de Adília Lopes e Robert Creeley. Até tem poema sob sua sombra em meu último livro. A fila interminável de Calvino é essa de nossas leituras necessárias... Grande abraço e obrigado.