Aug 16, 2008

Minha singela homenagem a Caymmi

Hoje faleceu (infelizmente, mas, ou todos nos deixam uma hora, ou uma hora nós deixamoss todos) um dos maiores compositores já visto nestas terras. Enquanto os demais de grande porte - Caetano, Chico, Gil, Noel - mobiliza(va)m seus artícios para o engenho da canção, Caymmi parecia simplesmente ecoar as maravilhas e tristezas que o circundavam. Até mesmo suas composições mais racionais que se celebrizaram na voz de Pequena Notável, são extensões de céu, mar, montanha, festa, gente. Talvez por isso atualmente não seja tão reverenciado. Caymmi construía objetos exclusivos do sentir. No tempo em que as pessoas sentiam, ele foi o maior de nossa canção. Fecho esta mínima homenagem com uma frase do Chico e um poema meu. A frase é a seguinte: "É possível compor como Caetano ou como eu componho, não é possível compor como Caymmi". E o poema é este:

no domingo de minha morte

no domingo de minha morte
quase chorarão os meus amigos
os políticos nas ruas mais sombrias
dançarão valsas com crianças pobres

nas salas mortas da Academia
um papel de bala aproveitando o vento
se moverá entre as carteiras
rumo à ilusão da porta

está fechada

aquelas que um dia e porventura
me inspiraram versos ou canções
procurarão avidamente nos catálogos
o número da loja de molduras

e o tempo que nunca avança
− horas são as durações dos fatos −
seguirá o mesmo para os outros
o entorno frio de meu corpo exposto

chorarão meu pai e minha mãe

8 comments:

FlaM said...

ô meu querido, mais uma pequena obra prima?! Vc é grande nos grandes temas, hein?
Lindo isso!
E eu que nem ao menos viria fechar meus olhos minha triste irmã...
bj, f

Ane Minuzzo said...

"horas são as durações dos fatos"
agora ficarei meditando nisso. bem feito pra mim! (rs)

imagético e delicado. muito bom.
bj

Luciano Pfeifer said...

Poesia para homenagear um poeta. Sempre muito bom te ler meu camarada.
Abração.

marta orofino said...

E de tudo, o que mais fez como ninguém foi saber cantar - e viver! - o amor, a mulher, a vida, a morte e o samba da nossa terra.
Abração
Marta

Guto Leite said...

Obrigado, queridos, pela leitura, pelos comentários, pela carpidaria... Sigamos na luta lírica de levantar o sol na palavra! Arte e abraço a todos!
p.s.: amanhã faço um exame chatinho, os que puderem, por favor, torçam! =)

FlaM said...

Tô torcendo, querido! Bom exame pra ti! bj, Flávia

compulsão diária said...

Guto, linda imagem do papel de bala solto no vento. Melancolia leve, delicadeza de Caymmi.
Torci antes de postar. Preferi em silêncio. bjos

milu leite said...

valeu a homenagem.
acho que, de algum modo, caymmi foi homenageado em muitas partes, sem choro nem vela, com poesia e música.
de minha parte, fiz isso também no meu grupo de canto, com João Valentão.
ab