May 8, 2007

A um poeta

"Trabalha e teima, e lima, e sofre e sua", está aí um verso que sempre admirei no "A um poeta" de Olavo Bilac. Não só por seu equilíbrio formal típica e perfeitamente parnasiano, mas também por refletir grandemente o trabalho do poeta em dedicar-se, exaurir-se completamente na linguagem. Também tenho lido uma coletânea de Roberto Piva em que um de seus amigos, com quem já fiz oficina, Cláudio Willer, relata as andaças de Piva pela cidade, a cantar versos, a indicar leituras, a beber, a cair. Disso fico a refletir que talvez o trabalho da poesia e da arte não seja para os tempos atuais. Talvez ele exija uma dedicação que não seja possível. Nos dias em que realmente consigo me dedicar ao ofício, não faço absolutamente mais nada (o que inclui as coisas que gosto) e fico com o gosto resistente de algo faltante. Da postagem de hoje só fica o cansaço que sempre me assolas às segundas e terças. Algumas dores também.

4 comments:

Kah said...

Eu acho exatamente isso, que o que falta aos artistas(poetas) de hoje é tempo, concentração.Parece que aquele velho ditado é cada dia mais verdade, no sofrimento é que escrevemos melhor.Um beijo e ótima semana!!!

daniela said...

Já não me lembro nada das aulas de literatura. Melhor assim. Leio os poemas como um todo, me importo com o conteúdo e com os sentimentos que desperta em mim. Apesar disso, acho que não gostava muito do parnasianismo.

Acho que o processo de criação (não só artística, um projeto, um filho) sempre envolve o sentimento de insuficiência. Não pela falta de dedicação, de capacidade, ou da escolha dos melhores meios, mas porque a importância dada à criação, pelo criador, é tão grande, que todo esforço fica aquém do que se deseja fazer, nenhum ato serve para demonstrar o amor e comprometimento.
Uma coisa que uso pra traçar planos realistas é perguntar coisas como: "se eu não tivesse que dormir hoje, daria tempo?", ou "se o teletransporte existisse, seria possível?"

Pra terminar, fica o mais importante. Os leitores de hoje precisam de poemas que falem da dificuldade de ser o que temos que ser e da tentativa exaustiva de tentarmos ser o que queremos, ou seja, que fale dos dias de hoje. Não me identifico nem um pouco com a literatura da burguesia e pra burguesia de Eça de Queiróz, por exemplo (por mais crítico que ele fosse, não deixava de ser burguês).
Aquilo que és se projeta na sua arte, mesmo que seja sob a forma de atiradores malucos. Tudo bem. Tem dias que eu também mataria uns 3 ou 4, se não fosse crime. A diferença é que até hoje, ninguém ficava sabendo.
Harmonia, pra você, Poeta-com-contas-pra-pagar!

Anne Baylor said...

Interessante..
Tbm sinto um vácuo terrível quando não escrevo.
Tento e forço a barra e vejo que quando faço isso, sai lá algo não muito bom, mas que me dá por satisfeita, pq escrevi. Na verdade, a necessidade de escrever é bem latente, mas não tão apreciada quanto latente. A falta de tempo não é na realidade tempo mesmo, é falta de sossego, falta de calmaria..
A vida faz a gente pensar demais em coisas triviais e passageiras.. ´Daí, prá sair a beleza numa poesia.. Suores de sangue na mesa...

Bjs

daniela said...

Pelo jeito eu sou a única que acha inspirador o esforço gigante que tens que fazer pra conciliar a vida de contas com a vida de poesia =( Não acho bacana teres que te esforçar muito mais do que os poetas de antigamente. Não mesmo. Acho injusto que não seja possível viveres da sua arte, principalmente enquanto Paulo Coelhos e Dan Brows nadam em dinheiro... Mas isso torna seu esforço ainda mais louvável.
Há tempos penso em voltar a pintar, mas falta a força de vontade pra me desdobrar em mais uma parte e pra me sujeitar a mais frustrações (o processo criativo é frustrante. As vezes não se domina a técnica, as vezes não encontramos as cores, outras (e principalmente) não encontramos maneira de materializar sentimentos, e tem a constante busca por um estilo próprio, e a dúvida esmagadora de saber se aquilo é meu, ou das minhas influências).
Te admiro, de alma, Guto!