Consegui, por fim, terminar minhas leituras de Ulisses. Realmente uma obra incrível, que recomendo aos interessados por uma literatura um pouco mais custosa. Ressalto, porém, que talvez haja certo exagero do autor irlandês em seus experimentalismos. Partes como a do bordel e o monólogo final, empetrado pela mulher de Bloom, realmente "valem a entrada", mas em muitas horas o vai e vem dos olhos em busca do fio narrativo é mais desgastante do que prazeroso. Agora inverto os esforços: em vez de Joyce, um bom livro infanto-juvenil de Twain; largo Piva, para aventurar-me na poesia de um brilhante amigo e poeta, Paulo Vieira, ainda inédito. Já que um outro amigo me disse, ao ler o poema que segue, "gosto dos teus lirismos drummondianos", espero contar também com os demais julgamentos dos frequentadores do blog. Dias de imensa construção a todos.
p.s.: os sintomas progridem...
Se eu fossese eu fosse mais bonito
um pouco que fosse
poderia acredito propor-
-te a mentira do amor eterno
longe dos grandes centros
concretos e sentimentos
nos instantes que duram meses
na melodia óbvia
das palavras oxítonas
poderia trazer-te nos braços
às avenidas e correr dentro
dos bosques estreitos
que dividem uma mão da outra
também a caixa descoberta
poderíamos parar diante
do último imigrante da metrópole
que traz um realejo
do lado de fora do pássaro
se eu fosse mais bonito
seria o pássaro enamorado
dos cartões da sorte
se não eu que num café
bêbados na fumaça quente
te diria vamos agora
ter um filho ou tentar
ou perdê-lo tu
sorririas envergonhada
e pagaríamos a conta com moedas
se eu fosse mais bonito digamos
um passo mais bonito
para perto de Pátroclo
não precisaria mais medir-me
contigo em amenidades
seria sucinto existe o amor
e a morte o que fazemos
talvez fosse mais soft
por carinho ou por medo
mas nunca me renderia
ao silêncio
aliás confidências
contaria que entre nos-
sas reticências qualquer
palavra é redundante
falamos mais pelos outros
que não compartilham conosco
um amor tão verborrágico
nossas discussões se resumiriam
a amor sim faça como quiser
você também e ponto
mas como não sou esse
tanto mais bonito
nem há chances de sê-lo
permito que continues
sofrendo de tempos em tempos
ciclicamente sofrendo
e desiludida e fútil e má
permito que permaneças
neste estado íntimo
de agonia e de baixeza moral
deixo que troques as cores
que matinalmente mintas
a ti mesma e acostumes
o ser que te abriga
com a mentira que é
o que abriga o amor
por sua vez
posso até ser egoísta
mas por não ser
bonito o bastante que me exima
do fracasso dos feios
condeno-te à infelicidade
mais dolorosa que existe
a falsa alegria do amor finito
prometo-te que velha
recobrarás o lampejo
dos meus olhos inconfundivel-
mente apaixonados
e será o único brilho
de tua mobília de anos
ao menos o único
em que confias cegamente
e todos os teus intentos
de juventude serão
tão inalcançáveis quanto ontem
coarás a filtro o rancor dos que
não sendo eu trataram-
-te pior do que deveriam
mais descuidadamente
e não terás mais escolhas
senão ser escolha da morte
eu por este lado
que é outro por não
ser mais bonito ou mais novo
mais impulsivo ou mais fraco
sigo levando o beijo
ilimitado que traz
todo amante verdadeiro
o receio que ao piscar
ou abaixar virar o rosto
por saber da promiscuidade
do acaso ou seu destempero
não mais estejas junto
levo o amor de recolher-me
à distância segura
levo a compaixão daqueles
que me percebem levo
conjecturas de um dia
quem sabe me leve
um acidente ou um acidente
te leve a ficar um pouco
mais feia e nós
equiparados
eu levo por não estar certo
de que há coisas para serem
levadas por qualquer que seja
ao lugar que for
o momento imensamente
descabido que freqüenta
o átimo anterior a todos
os eu te amo
ando sempre na hipótese