May 4, 2008

Poemas infantis

Motivado pelos comentários da última postagem, surgiram hipóteses sobre algo que me assombrava há algum tempo. Embora majoritariamente eu componha poemas e músicas em tom adulto, diversas vezes surge como proposta um tom infantil ou bufão nos meus versos. Este estigma infantilizante, principalmente depois de ler alguma coisa de psicanálise, sempre foi uma questão orbitante nas minhas preocupações. Será a opção de um lirismo pessoal em forjar determinado tom? Uma opção estética confrontadora, do tipo, "eis as relações aí no lúdico, não vê? Bom, acho que não me fiz entender. É realmente difícil explicitar este ponto da minha produção. Vou postar, então, alguns exemplos e qualquer luz sobre o assunto é absolutamente bem-vinda!

H

No princípio, todas as palavras vinham com agá
Antes.
Certo dia, por não se saberem úteis,
Resolveram deixar a empresa.

Como sempre há fura-greves
E dedos-duros (embora estes não se encaixem na contenda,
o que em nada impede posarem de figurantes)
Ficou o agá de hoje, de há, de halo,
De hipogrifo.
Dinorah, faceira que só ela,
Ora tem, ora não tem
O pensado,
Mas não dito.

Se bem que,
No caso de Dinorah,
O agá não é de princípio.


O sacrifício das pombinhas

as pombas tadinhas
são tão sujismundas
que até quando comem
erguem famintas a bunda


O maior arranjo do mundo

Quando não tinha mais nada o que fazer, tomou todas as flores do mundo
e deu a ela. Certo que não lhe cabiam nos abraços cada begônia, lys,
bromélia, rosa, todas as outras vis. Ela soube ganhar o presente.
Retribuiu com beijo breve de mil gametas, fecundado, leve.
Este floresceu no peito infértil do jovem a tarde inteira
e só a noite pôde acalmar o unímpeto da semente.
No dia seguinte, logo de manhã, foi somente
esperando marcar a data que entrariam
no primeiro concurso. Só ela tinha
flores, afinal. Mas encontrou,
no mesmo arranjo: beijo,
outro homem, ela; e
desfez-se baixo,
muito baixo
como a
péta-
la.

Ferrorama

os trilhos que puxam a locomotiva

7 comments:

isaac said...

que bela surpresa !

"o maior arranjo do mundo" foi o primeiro poema teu que li, guto, enviado que me foi pela renata dantas.
até hoje acho um dos melhores, pela fina dor, pela pungência e naturalmente pelo acabamento estético.

foi a primeira vez que li o "h", entretanto, e achei ótimo, até pelo egoísta fato de que tenho muitos poemas que exploram essa vertente meio confusa meio humor ... temas leves, como um hidrante que verteu uma gotinha em comprimento aos pedestres, ou o gênio da lâmpada que foi achado por mil pessoas e inflacionou o mercado dos 3 desejos.

o das pombas e o "frasual" eu não curti, não, achei que tinham pouco a acrescentar.

este post foi um dos top 5 do mês !
abraços, poemador

Marinam said...

Oi amorrr!!
To me sentindo tão entendida de Guto Leite... huahauhaua
posso dizer:
"hum... já tinha lido esses há (com h) algum tempo..." hehehe
acho eles mto legais, desses que até eu entendo HAHAHAHA
Saudades sempre!
Bjoca

Guto Leite said...

Caro poeta, honrando-me sempre com os comentários. Muito obrigado pela boa crítica. Concordo plenamente quanto ao das pombas, mas o "Ferrorama" ainda defendo com unhas e dentes. Brincadeira em parte, na verdade, minha voz tem caminhado mais para este último, enfim. Fiquei bastante curioso sobre o do hidrante, se puder postá-lo ou enviar-me, ficarei muito grato. Pra Marinam, ninguém mais de casa. Toma minhas roupas, bebe minha água e come minha comida. Saudades, querida, e muito bem-vinda por aqui, sempre!

daniela said...

Tirando "o maior arranjo do mundo", q pra mim n parece infantil, os outros são super alegres, e tem aquela inquietação típica das crianças, q vêem as coisas por olhos de criança-adultas pela 1ª vez, com comentários ora intrigantes, ora iconvenientes (ai do meu filho se vier c essas histórias de pombas), mas sempre leves.

Guto Leite said...

Obrigado pela crítica graciosa, Dani. Acho o das pombas certamente mais agressivo, mas também com esta leveza a que te referes. Obrigado sempre pela presença.

compulsão diária said...

O maior arranjo do mundo é o mais lindo mal-me-quer, bem-me-quer.

FlaM said...

adorei! me lembrou quintana...
Especialmente o H e a pombas. Genial, como que o isaac nao entendeu?
E o "o maior arranjo do mundo" é lindo!
e o ferrorama é inteligente, só prá quem já brincou de ferrorama...
Bala na agulha, garoto!
bj, f