May 19, 2008

Os males do blog

Eu ia me inscrever num festival bem interessante, organizado pela Off Flip, tanto de poesia quanto de conto. Infelizmente, não são aceitas insrições de poemas já publicados - normal - nem mesmo em meios eletrônicos, incluindo blogs. Assim, de cara, perdi uns dez ou quinze poemas que considero razoáveis, e uns dois ou três contos. Pensei em fazer um e mandar, mas me pareceu demais um tipo de loteria lírica, quase um número. Além do quê, um poema feito pra concurso não tem absolutamente nenhuma validade artística... Enfim, não estou dizendo nada.

Mensageira dos ventos

no fim da manhã quando tudo está ermo
e as janelas e portas são esforços de enfeite
permaneço imóvel a algum canto enfermo
com olhares móveis a intuir deleites

o sol que se move feito um cão soberbo
surge nos vãos das tábuas nos batentes
num esforço extremo sobre o mundo ileso
põe tudo a mover-se em sua sombra quente

apesar dos corpos, luzes decadentes
que ainda ignoram a força que há em torno
tudo é estático e a quebrar-se urgente

entra na pressa e no furor de um forno
no ar que arremessa soam alguns pingentes
e a casa em festa perde os seus contornos

9 comments:

daniela said...

Parece um retrato da infância =) Há tempos não vejo o sol passear, só por ver o sol passear. Geralmente estou a fazer outras coisas. Tem cara de dia passado na casa de cidade do interior dá avó boazinha. Tarde passada à espera de alguém: dos irmãos que não estão, da avó que foi alí e já volta, dos pais que foram viajar... Parece um poema cheio de uma solidão momentânea e confortável. Ou então n entendi nada.
Sobre a obrigatoriedade de ser uma obra original. Eu entendo. Uma obra só é tua qnd ninguém mais viu. Aquele retrato, por exemplo. Eu gosto dele desde qnd o fiz, mas só soube que era bom qnd os outros viram. Mas desde que mostrei à outras pessoas, o retrato é o que eu sempre achei que ele fosse, mais o que os outros disseram que ele é. Sofreu alterações, mesmo tendo permanecido o mesmo.
E sobre escrever pra concurso... Já tentei fotografar pra concurso e não resultou. Fazer-a-melhor-foto-da-minha-vida-pra-um-concurso é incompatível. A vontade errada, o objectivo errado e altas expectativas sobre uma coisa que não tem como ser previamente planeada.

daniela said...

Minha vez de me ferrar com essa história de nunca publicada!!!!!!!
Queria me inscrever no concurso novos talentos fnac, mas sempre que fotografo alguma coisa que gosto, vai logo pro flickr. A ver se ponho algumas idéias antigas em prática.. Acho q n vai sair nada...

Guto Leite said...

Como sempre, Dani, você comenta tudo com propriedade, querida! Sobre a interpretação, como você mesma disse, e concordo, o poema é tanto seu quanto meu. Se diverge em algumas coisas, poucas, ambos estamos certos. "verdadeiros" é um adjetivo melhor do que "certo", no caso. Arte a todos!

compulsão diária said...

Você é tão jovem!Louvo o padre/louvo o filho ..(Bandeira).
Arte para todos que a merecem.
Parabéns, moço

compulsão diária said...

Ah, que linda visita! Adorável. Quando eu voltar, quero texto novo.
Beijo

Guto Leite said...

Muito e sinceramente agradecido pelos comentários. Uma graça!

FlaM said...

Nossa! vc pintou a luz com palavras. Vc filmou-a com poesia!
Saio de casa e alma ensolarada! Obrigada!
flávia

Guto Leite said...

Eu que agradeço, Flávia, imensamente! Desejo tanto ser mais do que sou!

FlaM said...

De bobo que és! Desfrute o seu ser - sendo...
bj, f