Feb 2, 2007

O Processo

Sigo em meu processo (talvez uma alusão kafkiana) de desprendimento de quaisquer tipo de sensações minimamente individualistas em busca de algo mais abrangente. Tenho colhido, ao menos neste princípio, um grande número de impressões extremas. Por otimismo, começo pelo lado bom: tenho virado bem mais motivo de sorrisos. Nestes últimos dias, através de gestos, palavras, argumentações, desejos e carinhos, amigos e "breves amigos" têm sorrido de maneira generosa em resposta ao meu processo. Vale contar um exemplo: ontem, quando comprei a arte de um senhor de rua e o vi comemorando, e eu também comemorei junto, o bar parecia um sorriso imenso e impressionado. Este deve ser um bom caminho, se é verdade que tenho descoberto a necessidade absurda que as pessoas nutrem de terem seus dias mudados por algo fabuloso. Mesmo pontualmente, quase um rabisco, pretendo ser um elemento deste fabuloso na vida de quantas pessoas puder. Este é o lado bom. O lado ruim é que simplesmente não tenho mais crença alguma na maioria das coisas que as pessoas esboçam como sentimentos ou coisas. A vida comum tem-me perdido importância. Obscuro? Não acredito mais no valor físico que as pessoas atribuem a tal ou qual objeto, como também não acredito mais na maioria das definições de amor e de outros sentimentos (o que estranhamente tem feito com que eu seja mais comumente alvo de inesperados amores em que não acredito, uma tentativa desesperada da mentira ter-me de volta). Alguém pode dizer que este também é um lado bom, mas antecipo-me: como se deve reagir à descoberta de que todas as coisas em que todas as pessoas normalmente depositam suas vidas são essencialmente espasmos de fantasmagoria? Ou pior, se este estado de espírito for permamente, com quem(ns) irei compartilhar minhas reflexões, afetos, olhares, senão neste blog? Ultimamente já havia conhecido, e definido, o amor, a saudade, a dor, dentre outras importâncias, talvez esta sensação do dia como cativeiro regular de alienação, de agachado ao foco da luz, de perdido de vista, seja a descoberta de minha solidão. Espero que os parcos leitores deste blog aceitem o falso fardo delicioso que lhes compete. Muita paz e o melhor final de semana possível a todos!

1 comment:

alinoves said...

Guto...a vida é mais simples do que suas palavras (rs)!!. Do mesmo jeito simples que você fez feliz o vendedor, você faz feliz tantas outras pessoas. E a você mesmo?!. É certo que não concordo em algumas partes. Um tanto contraditório falar de solidão, achei que você não acreditasse nisso(e o livro de cabeceira?). Quem sabe a mentira que te persegue e a solidão que lhe parece sejam reflexos de sua alma, na "descrença que a vida e as coisas não merecem paixão"?
Boa sorte na finalização de seu cd, viu?. Estou torcendo por você.
Beijos
Aline