Feb 22, 2010

nosso silêncio diário

Terminado o conto (que rapidamente me lembrou dos esforços que faço para escrever prosa), volto em algumas reflexões sobre o silêncio.

Com as férias universitárias, as muitas obrigações em casa e minha mãe em viagem, tenho ficado longos intervalos de tempo em silêncio. Alguns dias sempre, às vezes uma semana, quando não ligam por engano, ou quando não tenho que trocar breves palavras com as funcionárias do supermercado.

Nesses momentos, minha voz vacila como se fosse possível errar e desaprender. Costuma sair baixa, grave, para dentro, e não raro ouço um "ahn?" como resposta. Talvez seja assim sempre. Só não o percebemos porque ficamos pouco sem falar, temos urgência do verbo. A voz, toda vez que se exibe no universo audível, rompe camadas densas de silêncio ao custo da força inteira da alma.

A voz ordinária é ausente de alma, por isso não faz força.

Nesses dias de silêncio, na verdade, tendo a falar comigo. Não alto, refletindo - penso que não preciso falar fora para escutar dentro, esse diálogo eu travo silenciosamente -, mas para sentir o pulso dos meus versos, de todos os textos que escrevo, diariamente.

Imagina a falta de jeito da minha boca, acostumada nos últimos dias a só dizer poesia, quando é solicitada a responder a uma fala de máquina: "tem cartão bom clube?"

Não. A única resposta possível.

2 comments:

apesardoceu said...

é parceiro... quanta coisa nesse silêncio...
um abração calado pra ti

Rá! Mentira?! said...

reaprender a falar. como nos falamos, então?