Feb 19, 2010

lentes de contato (parte 4/4)

Edgar pensa não haver relação alguma entre experimentar e trabalhar. Nunca trabalhou antes, talvez menino, da época que eu não o tinha sob as vistas. Por isso, ponderemos, torna-se muito difícil sua aventura laboriosa. A Esfinge, próxima de devorá-lo, pergunta se já experimentou antes. Claro que sim. Diversos e em muitos lugares. De celas a coberturas. Tudo do bom. “Trabalhei numa casa no Itaim, do doutor Noronha”. “Ah, que coincidência, do doutor Noronha, grande banqueiro. E muito justo”. “É”. “Quanto tempo trabalhou pra ele?”

Dez anos antes, em um apartamento na Lapa, uma mulher deixa seu marido. Ele, sentado a um metro e meio da televisão, finge prestar atenção à overdose sangüínea de um noticiário. Assalto à mão armada, formação de quadrilha, oito anos, seis presos, cinco escondem o rosto. Cenário. Ela sai por trás do sofá, pela porta, duas malas. Não bate, gira lentamente a chave. Dois cliques. Mis en Cène também com um único traidor. Ele chora pouco. Assim como no preso que não se esconde, nele não há sombra envergonhada de qualquer desvio. Vai ao quarto, o filho dorme. Encosta a porta, sem cliques. Encore de l’audace, em outro cômodo, beija o bebê que, agitado, livra-se da fantasmagoria. Da janela, perde-se em uma avenida onde carros dão movimento à noite quando passam. Anos.

“Dois?” “É, e alguns meses”. Ótimo. “Ótimo! O senhor poderia me dar licença alguns instantes, enquanto troco esses óculos por umas lentes de contato. Nunca me acostumo”. A outra metade retorna escada acima. “Bom sujeito, esse doutor. Humilde. Como se fosse nós, mesmo.” Busca uma chance, quem sabe? “Trabalho uns meses arrumo uma grana, vou pra Minas, ou pra Bahia...” Não quer mais casar. Filhos, pra quê? Ofício aprendido, se perde o mendigo. “Acho que três dá”. A gorda entra na sala e vence os degraus com um ar empregado.

Três minutos depois, desce. “Desculpe, senhor, mas o patrão sente-se indisposto e pede que o senhor retorne em uma semana para resolverem a questão da vaga. Tudo bem?” “Tudo”. Indisposto?! Ela acompanha Edgar até a porta da casa. “Acho que dá pra eu voltar na quinta ou na sexta, se o Moreira me pagar a comissão”. Despedem-se sem palavras, sem intimidade possível. Ela não se dá para cúmplice. “Se não pagar, há sempre a vendinha da Vila Mariana”. Finalmente, ao fundo, Edgar não ouve o som criminoso e frenético da foice, da enxada e das mãos do jovem Agenor, que trabalha competentemente naquela casa há três anos. Jamais passou pelas ideias de Rubens demiti-lo. Jamais.

FIM

1 comment:

Rá! Mentira?! said...

achei que você tinha deixado esse blog... so, silence (um dia ainda brinco de escrever em outras línguas:). temos muitos anos de estrada da alma, somos companheiros há muito, de algumas palavras e algumas tristezas, ou muitas. é necessário falar.