Oct 7, 2008

Restos

Há tempos, num evento, o Carpinejar comentou que blog de poesia era prática perigosa, por exigir diariamente grande estro do poeta em sua arte. Não me importei muito com a admoestação à época - até disse algo neste espaço a respeito -, mas hoje me arrependo, por motivo um pouco diverso do apontado pelo poeta. Continuo escrevendo poesia religiosamente, mas meu senso crítico anda severíssimo. Repreendo em mim cada tema, verso, quebra, rima, sobrando-me muito pouco para trazer aos que frequentemente me felicitam com suas leituras. Hoje, excepcionalmente, e me perdoem por isso, sirvo-lhes restos!

Com o tempo, parece, ainda hei de concordar com o Fabro plenamente. Muita arte a todos! E vida!

guizos

a tristeza é um guizo
no pescoço do poema
soando aqui e ali
os seus ruídos

as pessoas ouvindo
que se aproxima o bichano
rápido se emocionam

quanto mais algazarram
enternecidas
mais o corpo do bicho serpenteia

o poema bípede
no entanto
é o que vem soar
melancolia

como força
nua e silenciosa
que um dia enlaçará os gritos

a nudez do verbo entre um verso e outro
a morte que dobra no interior do corpo

4 comments:

Heyk Pimenta said...

Mas pára de chorar, rapaz.

Que restos?

Sabe, gosto, e de provoco assim, muito dos comentários pré-poema que vc coloca. Isso aí ainda vai ser aproveitado.

Mas o poema é bom.

Não liguei pra primeira parte.
acho que como poema poema ele termina bem.

a morte que dobra nointerior do corpo é figura boa. quanto o verso trás pra gente uma figura que a cabeça faz, mas vendo essa figura a gente vê que ela não tá clara, vê que é figura nova, que a cabeça não mostra transparente, eu acho que é verso bom.

pro oswald poesia é desacordo entre conceitos.
pra mim poesia é desacordo com o leitor. pelo menos com o que ele já viu.

FlaM said...

Meu querido, enquanto vc fizer qualquer coisa "religiosamente" vc segurá se repereendendo severamente...
Basta o carpimejar pra disseminar puxões de orelha!
coisa chatinha hein?
Desculpa, dá para ver que vc adora o cara! Mas eu achei esse papo um porre! Nada a ver! Quintana escrevia todo o domingo um poema no Correio do povo, qual o problema se hoje o poeta escreve para pôr num blog? A gente ficava esperando o domingo para ver o poema... Bom deixa para lá
Teu poema de hoje é lindo, e desculpa eu te dizer, fico na dúvida se vc está se depreciando, se é baixa auto-estima ou se pelo contrário é soberba. Pense nisso guto, querido.
é um belo poema, pq vc precisa chamá-lo de resto antes de mostrá-lo? Vc quer se antecipar à crítica? à nossa crítica ou a do carpinejar (representando aqui aqueles que possam considerar o blog um veículo menor, que compromete a qualidade etc)?
pára com isso Guto!
Vamos conversar?
bj, f

Guto Leite said...

Salve queridos, obrigado pelos comentários, sempre é muito bom pra mim o diálogo destas paragens. Heyk, já te disse noutros espaços, mas gosto muito dos teus comentários precisos e instigantes, volto à oficina! Obrigado, meu caro! Flá, muita calma nessa hora. Acho que o Fabro quis dizer sobre a dinâmica do verso em relação à crônica, por exemplo, não à prática dos blogs. E acho que ele está certo, um poema todo domingo, qualquer poeta faz, se não, não é poeta (sim, sim, ainda vou achar Quintana poeta um dia, rs...). Mas também entendo tua crítica e até concordo com um lado dela que é o da regulamentação, nisto, pra mim, tá mais do que certa. Admoestações são leis disfarçadas de conselho. Sobre o lance dos "restos", foi uma figura irônica. Não de soberba, mas se cada vez lapido mais, os restos são o melhor possível. Sei que o poema tem erros, mas queria usar uma figura provocativa (carinhosamente) e acho que rolou! Enfim, adoro mesmo são os diálogos contigo, querida, nossas deliciosas polêmicas.
Beijo e arte a todos!

Anonymous said...

A poesia precisa de tempo e espaço de respiração.
É preciso fazer silêncio por dentro das palavras. Às vezes isso demora uma insignificancia, outras vezes, a vida toda.
De um poema pode aproveitar-se hoje,somente um requebro de ar numa esquina e amanhã, toda uma alma.
Que o diga Fernando Pessoa.

Filipa Jardim