Jul 1, 2008

Difícil exercício

Nunca acreditei muito em oficinas de criação poética. Ainda mais depois que fiz uma com um poeta beat que analisou poemas de todos os oficineiros, menos os meus, por "esquecimento" (aspas de citação). Entretanto, a oficina que tenho feito, no último mês e meio, com o Fabrício Carpinejar certamente tem sido muitíssimo proveitosa pra mim! Não digo, obviamente, que mudei tudo o que escrevia antes, que me desfiz das peças empíricas do fazer poético adquiridas nestes anos, mas tenho expandido muito minhas reflexões, meus timbres, as imagens possíveis e tenho aguçado bastante minha sensibilidade lírica. O poema do último post, por exemplo, seria impossível há algumas semanas (a impossibilidade é um desafio que me encanta). Embora não tenha sido solicitado na oficina, prática comum de exercício, certamente é a soma de minha leituras de Bandeira com um certo laissez faire ma non troppo que o Fabrício defende às segundas à noite. Esse que segue, sim, foi solicitado na oficina.

p.s.: a solicitação foi no sentido de traduzir os sentimentos abstratos (que ele escolheu) em imagens pessoais, e portanto, mais distantes da concepção vaga do senso comum.

Sentimentos felinos

Volúpia: os movimentos propícios que ela faz enquanto dorme. Filhote de gato que ainda não abriu os olhos.

Amizade: acordar e perceber que ela, zelosa dos meus vícios, finge estar dormindo, afagando-me intimamente. Sorrir furtivo na tentativa de adivinhar quem finge há mais tempo. Tocaia de gato, que só quer afiar seus dentes.

Avareza: deixar-se de lado na ocasião do abraço, beijar e seguir úmido nos lábios. Dormir impropriamente. O filhote mais gordo, praticamente imóvel, à beira de um pires de leite. No peso do seu corpo, afasta o irmão mirrado.

Esperança: o átimo anterior ao segundo laço de suas pernas, quando, como uma garra de gato, ela amarra o pé nas costas de seu outro tornozelo. Meu olho gaiato esperando o mesmo de pernas que não são dela. O parto do último filhote, o gato da placenta. Tão vira-latinha no saco velho de arroz! Tão imprestável quanto os irmãos mais velhos.

Raiva: ver que há algo que dói nela, ser incapaz de medi-lo. Se angústia a desperta, adormecê-la de novo, medicando-a com esperanças genéricas. A raiva de não ser capaz de exceder-se. Os olhos fixos de um gato adulto, que não mia, não mexe, não sabe. Os intermináveis olhos negros deitados no gesto inútil.

13 comments:

FlaM said...

Sucumbi, guto querido. Não sei se não gostei ou não consegui. Amanhã menos cansada e derrotada eu volto para te ler de cuca fresca. Mas talvez meu dia tenha sido de uma felinitude concreta demais. (veja meu comentário na mimi, se quiser saber). Ou talvez a lagarta tenha deixado dela só as listras e eu esteja estranhando demais.
Bjos, depois te digo, Flávia

FlaM said...

Não, não é uma lagarta tão estranha. Eu é que acho que estava cansada, sonolenta e gatíscamente comprometida demais. Eu li agora sem dificuldade e gostei. Só tive dificuldade numa frase: "o átimo anterior ao segundo laço de suas pernas, quando, como uma garra de gato, ela amarra o pé nas costas de seu outro tornozelo." Não entendo e não gosto. Garra não amarra e tornozelo não tem costas! hehe. Acho sem sentido e por isso meio pretensioso.
MAs no geral gostei das metáforas felinas. Vc tb é/foi "gateiro", é? (catlover como dizem agora) Dá prá sacar uma "cultura felina". Muitos gatos na vida?
beijo, querido!
Flávia

Guto Leite said...

oi Flávia, eu ia mesmo te escrever, preocupado, por outros meios. Não pelo texto, exercício só, mas pela vida, que sempre é uma solicitação importante e difícil! Bom saber que a noite cumpriu seus intentos naturais.

Sobre a metáfora, foi a última a ser escolhida. É complicada mesmo, mas sou incapaz, por enquanto, de descrever de melhor forma o que queria. Gosto da imagem, mas sei que posso estar louco a respeito. Então, espero.

Grande abraço, muita vida!

william said...

Prosa poética em belas descrições. Sentimentos que se esbarram.
A tirar pelo texto, a oficina com o Carpinejar (grande poeta) tem sido muito proveitosa.
Abraço e até.

william said...

Flam não tente ser tão minuciosa e "entender" tanto o poema, em se tratando de uma prosa poética há um sentido nas palavras que vai além de um signifcado restrito.
As garras podem amarrar até as costas do calcanhar de Aquiles.
Até.

Miss Kitchen said...

bastante. só quem é rude não se incomoda!

FlaM said...

Não me incomoda, William, tô chata de chateada! Acho que estou esgotada demais para metáforas. Passei para te dizer isso, guto querido. (Willim é meu querido também, queridíssimo).
Dá um desconto,então, Guto, mas acho que já destes, né? pela preocupação manifesta nesse recadinho aí em cima. Obrigada! acho que, vou ver novela e jornal nacional...
bj, querido!

Lúcia Gorini said...

Guto!
Gostei da ótica felina. Tava lendo um livro que tinha uma citação de um poeta americano chamado Frederic Ogden Nash, que dizia:
"O problema é que o gatinho acaba virando gato". hahaha... Cuidado com tuas crias! Beijo.

Guto Leite said...

Salve, queridos! Gosto bastante quando os poemas geram discussões e polêmicas. Dentro de todo o respeito que temos uns com os outros, é coisa maravilhosa sim! Não vivi a ditadura, mas aprendi por me passarem os perigos do silêncio. Muito obrigado por verterem esse espaço em lugar de encontro, e por me orientarem tanto com as críticas!
p.s. pra Lúcia: gato pra mim é sempre inho. Mesmo os adultos, os mitológicos, os gatos de pesadelo. Qualquer dia um tigre me engole.

Mimi said...

Adorei!

Posso deixar no blog meu de forma permanente???

(só publico quando vc me autorizar...0

Heyk Pimenta said...

olha, eu achei curiosa a criação, e vou refletir sobre as oficinas, uma vez falei pra bea que não gostava. vou repensá-las...

botei fé.

Guto Leite said...

Mimi, autorizadíssima a postar e a, futuramente, despostar! quando e como quiser... fico lisonjeado!

Heyk, tomei com uam crítica positiva, foi isso? Crítica boa, mas complexa!

Mimi said...

Oi Guto!

Publiquei logo abaixo dos meus gatuchos e da Flam.

Obrigada!

beijos!