Jun 29, 2008

Livro novo no forno

Ontem vivi uma noite estranha. Após as oito horas de aula da especialização, em vez do costumeiro cansaço, cheguei em casa na pressa de organizar o novo projeto. Tive a idéia durante as aulas. Em "aperitivos & sobremesas", misturarei poemas mais ligados à tradição com alguns mais usados. Também decidi por dividir o livro em subtítulos segundo um cerimonial de jantar - um pouco à mineira - sem, obviamente, o prato principal, que o título apaga. O resultado foi que passei quatro horas e já tenho cerca de 80% do livro terminado. Ao menos o primeiro fim, que costuma andar bem distante do último. Como são todos os primeiros fins, de suas contrapartes maiores. A noite, da morte. Os olhos, do beijo. Calei uma série de metonímias.

o rio

nunca gostei de dois
sou um

corpo
baixo
fraco

larguei o catecismo nos estudos da trindade
a tudo que me juntei
coisa gente ou lugar
veio a morte
uma

depois da idade restar-me
senhor absoluto
vi minha neta apontar o córrego
e fazer barulho de s

s
s

abri um sorriso açude

que falta faria às coisas
o consolo de haver mais uma

ói vô
o rio

o sorriso seria o rio


("aperitivos & sobremesas", em "pães de queijo com manteiga", Guto Leite, não editado)

5 comments:

Heyk Pimenta said...

Hahahha, isso eu tbm boto fé (ah, boto fé é o meu novo cagoete, só tõ falando isso).

COmo pode, eita pretensão boa.
Já tem o livro numa noite quase pronto. VIva a verve do poeta.

O tainho paes fez o último agora assim tbm. Viu umas besteiras numas viagens e do argumento a publicação foi menos de uma semana.

Legal Gutão.

E gostei do poema. Pô, eu sinceramente quebraria aí os versos. Isso tá gostoso aí como prosa.

Arrebenta, rapaz. Chegado e cheiroso. Viva.

Me escreve, podendo, pra contar as novas, e me dizer o preço do livro, safado. Abraço.

isaac said...

olhaí, meu velho ! livro novo chegando, cheio dessa energia mineira que jamais poderia estar distante da culinária, seja gastronômica seja metafórica.

o poema vem numa linha um pouco diferente do que eu li em "poemas..."; este me agrada mais por ter sido um tiro absolutamente certeiro mas essas comparações nem fazem muito sentido;
tou a fim de ler esse novo tento, que rasteira o poeta nos prepara ?

o abraço

daniela said...

Que poema tão doce =)Parece leve e maduro ao mesmo tempo.

FlaM said...

E em minas tem açude?
Aqui nao tem. nem sanga!
Escrevi um poema líquido só para usar essa palavra. Nao lembro se vistes. Um maigo mostrou a foto de um açude e eu lembrei da palavra e da coisa em si. Depois vi alguma outracoisa aquosa lendo Lispector e aí veio o poema, inundando... hehe
Ai que fique pensando em estância, estância gaúcha quando li... e sorri! cheio de SSSSS
gostei!
um pouco estranho
mas gosto de lagartas listradas
bj, f.

Guto Leite said...

Bons e precisos comentários, que beleza!
Heyk, só juntei tudo numa noite. Só o Pessoa mesmo pra saber capaz de escrever O guardador de rebanhos de uma hora pra outra. Isaac, obrigado pelo incentivo da curiosidade, o mais genuíno e confiável. Dani com tuas palavras de confeiteiro e Flávia com tuas frases exóticas, fauna de campo.
Gosto de tudo, guardo tudo. Escrever é puxar um fio da cabeça