Jul 26, 2008

A educação dos prazeres

Percebo que tenho postado muito ultimamente (aliás, ducentésima postagem, e pensar que começou com uma insistência de namorada!). Por um lado, ótimo, que realmente tenho escrito muito, principalmente poemas, uns roteiros e uma peça, filha única. Por outro, obviamente, ruim, que despejo os textos por aqui, tomando o espaço como lugar de experiência (o que, cá entre nós, sempre foi minha predileção). Recuei bastante em relação à concisão e contemporaneidade dos dísticos, ao deixar de delegar para fora da linguagem no que chamo de imbrincamentos discursivos, o ponto de inflexão poético; mas é que tenho achado de novo tanto gosto no sabor das palavras. Tenho sentido tanto prazer na busca do tom, do vocábulo, da imagem. Não pensem que sou diletante... Num tempo de pouquíssimos prazeres válidos, não posso recusar algo tão ao alcance das mãos.

Ficam dois poemas: um da casta vanguarda de antes, outro do meu reapaixonamento!


trava-língua

os matos pastam as vacas
no inevitável das carcaças


a legião

como o primeiro porco
rumo ao despenhadeiro
impregnado do Demo
tirado do corpo humano
antes um desconforto
que Deus tirou de si mesmo

do porco de seu âmbito
como o primeiro pêlo
à frente se eriçando
o pêlo do ar inédito
da brisa não corrompida
como o arauto do bando

arrancado do judeu
do chão da rés do rebanho
para depois sem remanso
ser exilado da vida
como o olhar pelas mãos
dos apóstolos piedosos

antes perder o filho
do que banir a fortuna
como o porco que a preguiça
testemunha na colina
todo poeta nasce
no começo de sua morte

3 comments:

isaac said...

gutão, o primeiro é uma das belas sacadas do "aperitivos e sobremesas".

o segundo tem o trunfo inconteste do ritmo, da sonoridade (vou recitá-lo no próximo recital, vai ficar feríssimo) mas a meu ver o entendimento fica um pouco confuso.

o caldeirão de "porco, demo, judeu, pelo eriçado (com acento! genial), espinhadeiro" é fabuloso em seu sabor, mas peca pela pouca clareza, na leitura que fiz.

abraços meu irmão !

compulsão diária said...

Guto, não sei se é pouco claro. como disse Isaac. Se for..não peca. Sabe, o poema vem todo na toada do sacrifício. Esses porcos são típicos objetos sacirficiais. Então eu fico com o o engmático impecável::)))
E termina adaga voadora: todo poeta nasce no começo de sua morte
Reapaixone-se pra sempre.

Guto Leite said...

Grato, marujo, pelas críticas e pelas ressalvas à "legião". Aliás, ajudou-me muito numa alteração que farei. Obrigado, poeta. Tuas críticas têm sido imprescindíveis!

Béa, querida, fico feliz que tenha gostado. E agradeço os votos! Talvez eu esteja substituindo uma despaixão feminina pela repaixão às palavras, mas, bom, não me arrependo por enquanto.

Abraço a todos!