Jun 10, 2008

Um conto pequeno sobre elogios

Visto que se instaurou uma pequena polêmica sobre dar e receber elogios, posto este pequeno conto, sem grandes pretensões de dirimi-la, nem sequer respondê-la, pelo contrário, para miltiplicar os pensamentos sobre. Abraços e versos a todos!

O elogio dele mesmo

Ele era bom, evidentemente. Começou a entender as palavras aos três anos de idade, fez a primeira greve aos oito, a primeira canção, aos dez. Com quinze, consumiu cada obra relevante de Machado. Aos dezoito, publicou seu primeiro livro de versos, feito nos dois anos anteriores. Entrou na USP, entre os primeiros, para estudar a decadência latina de Petrônio. Não teve um mestre que deixasse de sorrir às suas questões desconfortáveis.

Formou-se com júbilo e amargurado. Publicou novamente um livro de fábulas que maliciosamente dizia esquecidas pelos irmãos Andersen. Emendou um mestrado que – arrisco – versa sobre o capítulo quarto da obra de Huysmans. Ao cabo de doze meses, uma gestação de baleia, sua pesquisa foi recomendada em sorrisos para que virasse obra. Recusou com o receio de manchar certa memória simbolista.

À altura desse tempo, começou a considerar que já merecia elogios. Não que aqueles gestos relativamente explícitos escapassem a seu espírito perspicaz, mas por achar que as loas consistiam no passo imediatamente anterior a viver de seus escritos e não fazer mais nada. Que fosse dos pais, esquecidos no interior de Santa Catarina. Que fosse dos velhos mestres, com os quais ainda trocava e-mails esporádicos. Dos amigos, sempre ressabiados por lidar com alguém melhor. Quem sabe dos leitores, que o liam e raspavam o indicador com a cabeça.

Num estertor grave e agudo, publicou há alguns meses um livro intitulado Pensamentos: as ruínas da razão e a intuição como chave de saída pós-moderna. Desde então, tem recebido elogios constantemente. Por acenos, por cartas, por e-mail, por blog, por presentes. Os versos antigos se tornaram grandes, esboços de um gênio. Nas canções, nota-se a clara influência de Chico, de Noel e de Beethoven. Suas pesquisas proliferaram nas academias como uma cultura de fungos. Todos se calavam muito toda vez que falava.

Acabo de vir de seu enterro, uma balbúrdia. Não sei do que morreu. Durante a noite, à medida que esfriava, ou acabavam os salgadinhos, ou os salgadinhos esfriavam, a multidão se resumiu a um único homem de grandes óculos high-tech plantado à beira do corpo e os parentes mais velhos escorados às cadeiras. Esgueirei-me em entrepostos com a vontade de permanecer um pouco ao lado do morto. “Esse merecia um elogio”, murmuraram os óculos, com um palito na boca. Não respondi, absorto. “Um elogio”, repetiu, ainda mais sinistro. “O quê? Quem?”, retorno cataléptico. “Um elogio, dele, dele mesmo”.

5 comments:

compulsão diária said...

Grande Guto, pois é: homens assim não suportam nem os elogios que poderiam fazer - ainda que em segredo - a si mesmos.
Gostei do conto. Na medida!
mille baci

FlaM said...

Guto, lindo texto, Maravilhoso mesmo. Fantástico! Muito bem escrito. Glosou gloriosamente o mote! Humor refinadíssimo!
Guto, você é o máximo!
Beijo, Flávia
(hehe, segura essa agora...)
Ah esqueci de dizer que encontrei fotos tuas e vi que és um belo homem...

Mimi said...

Ando sedenta e ávida por textos em blogs bons.
Vou me fartar por aqui.
Elogio sincero, acredite, vindo de alguém que devorou Machado em tenra idade também, mas não cansa de repetir esse prato.

Um abraço

Guto Leite said...

Obrigado pelos elogios, caríssimas! Que bom que gostaram das capciosidades. =) Acabo de escrever um tanto, esgotadíssimo. Mesmo assim, precisava vir agradecer o cuidado de vocês! Muita arte, sempre!

FlaM said...

Descansa querido!
Ainda mais agora que sei que andas em ótima companhia. Olha ela por mim, tá? é simplesmente um dos maiores amores da minha vida! Um amor de barriga, de óvulo, de projeto,de sonho, desde que era só um nome, amor anterior ao nome, quando era só amor...
E rimos hj um bocado no msn falando de ti, quer dizer da coincidéncia. Bj, f.