Jun 17, 2008

Preto-e-branco


Quem deseja somente a leitura lírica, sem o esbravejo, pode pular os parágrafos abaixo.

Se tem algo que me tira totalmente do sério é racismo. Não digo o racismo em pidas. Fazem piada de tudo, ajuda a lidar com o medo e com a culpa: não procuro pêlo em ovo, nem tiro, se o encontro. Também não me refiro ao racismo em expressões usuais. Se "escurecer o conceito" é racismo, "deu um branco" também é. Falo sobre o racismo em silêncio, no ceder espaço na rua, nos olhos de soslaio, na piedade (meu Deus, quanto racismo há na piedade!) na difenciação de um ser humano pra outro pela diferença de pele. Chego a preferir tristemente o jovem que diz a expressão nojenta "coisa de preto" ao velho que olha por cima dos óculos curtos e resmunga.

É estrondoso pensar que só nos demos conta (nós, aqui, a raça branca) após a eugenia nazista. Ou seja, foi preciso surgir um louco que elevou o tom do discurso da maioria, que inclusive o elegeu, inicialmente, e fez uma das maiores barbaridades do século passado, para que nós (aqui como lá) começássemos a refletir a respeito. E grande parte de nós ainda continua pensando a respeito. Posto o poema abaixo, feito nessa semana, em homenagem ao meu avô paterno, homem bonito!

Preto-e-branco

os velhos nunca posam com orgulho
menos os velhos pretos

com suas vestes preservadas
suas tabuletas de preço
seus tecidos coloridos
seus olhos sujos de ferro
com chapéus expatriados
dando contorno à cabeça

as cerâmicas cor da pele
quando espatifam se enterram

os jovens pretos que posam
com o medo branco dos velhos

p.s.: desculpem-me os mais sensíveis pela charge, também me embrulha o estômago.
p.s.2: após esse descarrego, viajo por dez dias, a um festival e a Sampa. Devo me afastar um tanto deste espaço. Muita arte a todos que o dividem comigo!

6 comments:

FlaM said...

Guto, racismo é das coisas que mais me exasperam. E não tenho tolerância com piada. Risco do caderninho quem faz. Simplesmente troco de calçada, levanto da mesa, vou embora. E brigo. Bato boca, se possível, humilho, faço o possível para reduzir o/a imbecil à insignificância da sua ignorância. Viro arrogante. E termino dizendo: nós mulheres negras somos assim! E já teve burra me dizendo: ah mas tu não é negra!
criei meus filhos com a regra de que piada de negro (e de lora burra) não entra nessa casa. hoje eles são mais intolerantes que eu (ok loira burra menos, afrouxei um pouco, sempre aparece alguém contando)
A charge é ferina (como cabe a uma charge).
O poema é lindo. Gostei muito de como vc joga com as oposições branco/preto, jovem/negro. Funciona muito bem na evocação das imagens e no conteúdo. (no texto é que acho que vc se passa nesse ponto: por que "prefiro"? Entendo que vc está querendo enfatizar o desprezo pelo racismo silencioso, mas acho equivocada a "preferência")
Mas o poema é perfeito, politiza o tema sem perder de vista a poesia e a emoção!
Meu convite para o chima na reden em julho caiu no chão? ok deixa lá, rolando... não vai faltar quem queira me acompanhar... sniff...
Bom festival prá vc! Vou sentir sua falta! Beijo, Flávia

compulsão diária said...

Lirismo com esbravejo é bom, bonito e necessario. O medo branco dos velhos das fotos descritas com poesia, bate e volta feridos pelo o reflexo dos jovens pretos que posam.
Eu gostei. Seu avô leu?

Guto Leite said...

Bom demais o envolvimento (meu lado mais que mineiro), agradeço sempre a confinaça em virem me ler e ainda a generosidade em compartilhar comentários! Obrigado! Particularmente, Flávia, achei que o "tristemente" me eximiria da discussão, mas tendo a ler "preferência" mais literalmente, prefiro cair num caminhão de chuchus a um de giletes. Sei, comparação tosquíssima, mas a reflaxão tange essa imagem. Béa, meu avô não leu não. Já leu meus primeiros livros e teve maior orgulho e tudo. Não sei mensurar como é ter sido ferroviário e ver os filhos e os netos estudando, produzindo cultura. Enfim, meu avô, também por suas pérolas, valeria um livro. Arte a todos!!!

Mimi said...

Um tanto doloroso este tema para sua blogueira aqui... Tenho todos os fenótipos em meus genes!
Tem negro, branco, índio, asiático... sou a mais pura brasileira!

Eu luto diariamente contra todos os meus preconceitos.
Tenho alguns, confesso.

Beijos e boa viagem!

Mimi said...

Só para vc entender melhor:
http://mentequemdiz.blogspot.com/2008/04/gaijin.html

mais beijos

FlaM said...

...droga de festival que não acaba!