Apr 2, 2008

Intraduzível


As linhas abaixo relatam uma inquietude literária. A quem não se interessa, recomenda-se, gentilmente, que leia apenas o poema.

Aproveitando a grandiosidade sensível e artística dos que sempre me brindam com sua presença, gostaria de colocar uma questão para, caso aceitem, troquemos opiniões a respeito. Que tipo de valor está inerente à intraduzabilidade de um poema? Claro que um contra-argumento natural é apontar que muitos dos grandes poetas (Shakespeare, Rimbaud, Dante, Baudelaire... isto não é uma ordem) foram competentemente traduzidos para diversas línguas. Também não procuro não ignorar aqui os problemas levantados nos últimos cinquenta anos acerca das traduções, que conduziriam as obras traduzidas a serem consideradas quase "versões" da obra orginal. A motivação deste questionamento advém principalmente de dois pontos. O primeiro deles, absolutamente pessoal, diz respeito aos poemas cada vez mais intraduzíveis que tenho feito. Sendo que, ou pela cultura ou pela língua, são transpostos para além da possbilidade de serem traduzidos, remetendo o tradutor somente a uma espécie de mecanismo do poema ou mote, mas não ao poema em si (crenças, crenças). O segundo motivo, menos pessoal, inquere se ser tão imerso assim em sua cultura ou língua de origem adjunta valor ao poema (algo como uma superfície duplamente laminada) ou retira valor do poema, ao torná-lo não-elemento do que seria o thesaurum literário universal? Se alguém puder iluminar esta questão, a gratidão do pretenso poeta será imensa.

Arapuca

meu avô armava a arapuca
todos os dias bem cedo
vinha cuidadosamente
trazendo o saco de alpiste
entre o corpo machucado
e o braço

apoiava com dois dedos
uma frágil madeirinha
cerrando o olho direito
inclinava-a na armadilha
por cima dos grãos de bico
no forro

depois descia pra casa
penitente vagaroso
já na mesa da cozinha
saboreava o baralho
com um copo de cerveja
amiga

que o mataria mais tarde

4 comments:

Fenridal said...

See please here

Tagg said...

1. mas o que vc chama de tesouro universal? se não é possível traduzir, tbm não é possível o universal. ou não? quer dizer, quanto temos dos demais e quanto têm eles de nós? somos um país periférico e por isso nossa língua e literatura são periféricas, uai! pior é nos comportarmos como tal e, por isso, mais periféricos ainda. até a pretensão da liberdade não foi mais que decalque da busca pela liberdade de outros. e a pretensão da originalidade foi copiada. importa a palavra (é só o que importa).

2. será q eu fiz sentido? ou n entendi o q vc quis dizer?

3. curioso? hein? tavas com preguiça de escrever? minha literatura é de cinco minutos, não mais que isso é necessário para apreciá-la, analisá-la e esquecê-la.

Douglas said...

Por mais que eu devaneie volto a me ver preso na questão pelos laços do idioma. Não pelos motivos óbvios que costumo ouvir por aí acerca de traduções de obras diversas, mas porquê, ao meu ver, qualquer tradução que se enseje faz a obra perder um pouco da alma do autor que ela contém. O fator cultural é imperativo na questão, bem como o "momentum", apreciado (no seu todo e como inspiração) apenas pelo autor. Qualquer tentativa de RE-PRODUZIR a obra acarretará em danos à mesma; Danos esses que, embora talvez apenas superficiais, não deixam de mutilá-la. Em contraposição, pode-se muito bem argumentar acerca das multiplas interpretações quando da leitura da obra, seja pelo mesmo leitor, seja por diversos. No entanto, a interpretação no ato da leitura é algo pessoal e não afeta a obra original na sua substância. A tradução, por sua vez, tem sempre um "co-autor", que costumeiramente não é tido como culpado quando um poema é dito ruim.
Perdoem-me se divaguei muito, mas gostei da discussão proposta, apesar de sentir extrema dificuldade em me fazer entender por meio da escrita. Como vocês conseguem? ou melhor: Conseguem?

FlaM said...

muito bom o poema, final inusitado, desfecho perfeito.
Sobre a tradução, ah, sei lá, dia desses ainda discuti isso com amigos, mas nnao eram quase 3 de madruga. Vou dormir. bj, f