Jan 16, 2008

Talvez um conto

A louça do chá

Nas horas de um fim de tarde, viu-se uma mesa posta. Sobre a toalha bege, de tempos, bordada às dezenas de flores desfiadas, apoiou-se uma rica louça de ascendência inglesa, mas escrava de fornos nacionais: um bule de dois palmos, tatuado de roxas violetas; dois açucareiros brancos, brancos, um de cada lado; quatro pratos com pequenas frutas pelas bordas; e, até mesmo, muitos casais de prata, solteiros, guardanapos de papel, dentre outros convidados. Enquanto o sol comedido entrava pela janela ao máximo de dois passos da mesa, tudo eram chá e bolachas, molhados um no outro, mas assim que o primeiro reflexo recendeu na parte de cima do pires, tudo teria se desfeito, se a xícara não interviesse com um carinho de soslaio, as costas frias do corpo, contra-corpo.

2 comments:

isaac said...

surreal, um chá onírico, uma idéia excelente. um clima tal a bruma que nos toma quando acabamos de acordar.

Tagg said...

lembrei de proust, menos pelo estilo e mais pelo chá (e isso não é um deselogio). xícara de soslaio cheira a fernando pessoa (bernardo soares?). e se pudéssemos traçar no segundo da leitura toda a sua árvore genealógica? de qualquer forma, é muito bom sentir no gosto da palavra nossa o gosto tardio (tradução assim porque quero) da palavra de quem soube mais (o verbo tbm é de propósito). o teu chá tava mesmo uma delícia!