Jan 10, 2008

No cravo e na ferradura


É absolutamente senso comum que estamos perdendo a sensibilidade para o desastre. A overdose que sofremos de assassinatos, guerras, atrocidades etc. rapidamente nos deixa imunes a essa forma de violência ao espírito (ou a maioria de nós, pelo menos). Só realmente morre de cólera em nosso bairro, ou sendo nosso vizinho ou nosso irmão. O mesmo com seqüestros, assaltos, balas na cabeça. O resto é tipografia ou internet, sem a materialidade unânime que confere existência às coisas reais. Há até casos de alguns malucos que, perdendo o filho, dizem-no ser "mais um caso do que vivenciamos" ou "um exemplo da violância na cidade". Para o diabo com os exemplos! Exemplos são recortes metodológicos, geralmente ruins, para se constatar tal ou qual teoria, não brincam de carrinho, crescem, se assanham, não criam eles mesmos exemplos para explicar o mundo...
O que realmente me intriga, oposto diametralmente, e aceito solícito hipóteses esclarecedoras, é a razão por que perdemos igualmente nossa sensiblidade para o maravilhoso. Quantas pessoas devem sorrir para considerarmos o riso? Quantas nos devem elogiar para dizermos "bom, salvo ser saco de carne, isso ao menos não me escapa"? Quantos devem se emocionar por uma canção, poema, escrito para que reconheçamos válida a tentativa de arte? Não sei o quanto compartilham comigo esse assombro, mas tenho me descoberto cada vez mais imune ao maravilhoso, cada vez mais além do tocante! Caso sintam, alertem-se, pois este processo tende a ser muito mais perigoso do que o primeiro. Não por ser silencioso, mas por agir "no cerne do afeto".
É necessário somente um braço para nos erguer do lago ou afogarmo-nos! Às vezes nem isso!

3 comments:

Má said...

Um aBRAÇO prá erguer vocêee!!
Bom final de semana
=)

daniela said...

Arranje uma máquina fotográfica. Uma qualquer. Se vc quiser fotos bonitas, vai TER que PRESTAR ATENÇÃO ao bonito. Funciona pra mim.
A parte do saco de carne... Bem, não consigo me ver muito além disso, mas lentamente isso está a mudar.
Li em algum lado, e infelizmente n lembro o nome do autor, que uma fotografia é resultado de todas as músicas que ouvimos, os livros que lemos, e as pessoas que amamos. Pra mim isso é um dogma. E a tornar-me uma pessoa mais bonita e completa, transfiro isso pras minhas imagens. E é assim que renovo muita esperança de um dia ter uma existencia plena.

isaac said...

caro poeta, uma hipótese:

1) criamos calos, para nos proteger das experiências que doem;

2) os calos protegem do impacto de fora, mas atrapalham a expressão de dentro pra fora;

angústia, desejo de passar despercebido, etcéteras.