Feb 22, 2011

O valor do processo

Meu avô fez noventa anos há algumas semanas. Como poucas pessoas nessa idade, permanece lúcido, sendo um prazer acompanhar suas muitas histórias (raras vezes ouvi dele uma história repetida) e sua postura sempre humilde em relação à vida.

No dia seguinte à festa, tive a oportunidade de conversar um pouco com ele, relativamente a sós. Foi quando ele me contou de sua infância e que sentia muito não ter aprendido carpintaria com seus tios (meu avô perdeu os pais bem cedo). Com as mãos sobre a barbicha branca, meu avô disse que não entedia por que todos usavam uma forma de madeira e seu tio insistia em fazer os cortes sobre algumas marcas no chão, o que seria muito mais difícil. Ouvindo isso, comentei que talvez o tio de meu avô entendesse o valor do processo. Que antes de ser ou não prático, cortar a madeira diretamente no chão devia despertar ou relembrar aprendizados que ele considerava interessante.

Ah! meu avô soltou brevemente um ar da boca. "Pode ser...", balançou a cabeça afirmativamente.

Tanto quanto a admiração por alguém capaz de ouvir uma pessoa sessenta anos mais nova, ficou-me a sensação de que está aí um dos perdidos de nossos tempos: o valor do processo. Como tudo tem um motivo, um proveito, uma ação, um sentido, pouco importa o processo para se atingir o alvo. O problema é que muito de nossa cultura se deposita no processo. As nuances de significado estão no caminho, não no fim ou no início. À luz dos extremos, publicidade é poesia, auto-ajuda é romance, notícia é crônica, scrap é conto.

Meu avô é do tempo do processo...

3 comments:

Felipe Wagner said...

adorei!
concordo plenamente, alias ainda digo que quando conhecemos o precesso das coisas damos mais valor e jamais esquecemos!
abracos

Tati Bertolucci said...

Incrível. Tenho a mesma (exatamente a mesma) sensação da vivência com meu avô, que sábio e lúcido, tem 87 anos.
Voltei a visitar o espaço. Tinha saudades.
Beijos.

Adriana Karnal said...

pelo tempo do post deve ter muito tempo que vc não vem aqui...mas vou comentar mesmo assim...melhor o processo do que o produto...que é mesmo da época da propaganda.