Sep 25, 2008

Pirilampos & Andorinhas

Percebi, de memória, mas poderia dizer, conferindo o histórico de postagens, que há tempos não posto neste espaço uma letra de música. Aproveitando a ocasião festiva da minha banda, que decidiu continuar na luta e gravar o primeiro cd em março, trago uma das músicas escolhidas e uma pergunta latente: é possível perceber a temática crítica e desoladora de sua aparente alienação pantaneira? Visto que, por motivos históricos, de qualquer forma estarei longe do contexto popular, resolvi ser suficientemente sarcástico para também tentar ludibriar o suposto público culto que ouviria nossas canções. Só não sei se fui bem ou mal-sucedido na empreitada...

Como curiosidade, lembro que passei um dia todo com essa música na cabeça... Compus num dos dias da filmagem e, como estava sem gravador ou pc, e também não sei passar os sons para partitura, fiquei repetindo indefinida e silenciosamente a letra e a melodia até poder registrá-la em algum lugar. Só de não tê-la abandonado quando cheguei em casa, essa música já pode se dizer uma lutadora.

Um abraço por extenso a todos, vida e muita arte!

Pirilampos & Andorinhas

Ouvidos pirilampos quando
Ouvem, piscam; quando
Voam, saltam; quando
Brincam, riscam o céu.
Nos úmidos desertos sonham
Luzir seu brilho esparso como
Um meio de voar mais alto
Fugindo dos insetos.

Ave, andorinha, linda linha
Branca no ar azul,
Bem acima dos pântanos,
Além dos obstáculos.
De vez em quando baixa e, por descuido,
Muda seu habitat,
Engole um pirilampo e
Pisca-pisca por dentro.

Engole um pirilampo e
Pisca-pisca por dentro.

10 comments:

FlaM said...

Cansada demais para ler. (Seria injusto contigo.) Cheguei agora do campo. E passei só para te dar um beijo, mesmo que tenhas perdido teu senso de humor nesses lugares por onde andastes....
humpf!
bj, flavia

daniela said...

Te entristece que eu n entenda? A mim entristece.
Sei q senti um certo maravilhamento pela beleza-trágica-irónica-cruel, quase engraçada, da cena descrita. Tlz seja engraçada, eu (como muitos vivem apontando) é q n tenho grande sentido de humor...

FlaM said...

isso de pisca-pisca por dentro é muito lindo!
bj, f

Lúcia Gorini said...

Eaí, Guto? Como anda? Passei por aqui pra dar um oi e dizer que curti os "Pirilampos e Andorinhas". Voltou pras aulas do Fabro? Putz, este semestre, não deu pra mim. Mas, no que vem, I'm in! Saudades de vocês! Beijo.

Henrique Magnani said...

Cara, se eu percebi "A" crítica, não sei, não sabemos.

Afinal, como já nos é sabido, toda comunicação esbarra no princípio da incomunicabilidade, não é? Como saber que a crítica que você pretende imprimir à letra, dentro dessa cabeça cheia de coisa, é a crítica que eu construo?

Proponho um trato: eu apresento o que entendi e você apresenta o que entendeu dessa música. Hein? Hein?

isaac said...

fala gutão !
também não consegui captar esse viés todo de crítica, não. aliás, me pareceu muito mais um êxito como poema que como letra de música, oxalá eu queime minha língua ao ouvi-la ao vivo, um dia.
mas o poema é bem singelo e gostoso de ler, pelo menos na leitura que fiz.
abração !

Guto Leite said...

Salve, caríssimos! Se tantos espíritos privilegiados não viram, é porque não tem. Certamente passei longe de meu intuito. Era pra ser uma crítica quanto à ilusão artística de ascender socialmente, sendo que os que realmente mandam e endinheiram-se, já o fazem desde sempre, enfim... mas como a crítica foi boa, e agradeço muito, não desistirei da canção. Muito obrigado pela deliciosa visita de sempre, queridos. Realmente vocês se imprescindibilizaram no que eu faço. Grande abraço, arte e risos (como assim perdi meu humor, Flá?? =) )

Henrique Magnani said...

Bem... não desista não, rapaz. Eu acho (na minha leitura, ao menos) que você deu margem para essa interpretação, sim.

Como eu falei, agora que você comunicou-me a sua interpretação, lá vai a minha sobre a tal "crítica". Não é tão longe do que você pensou, se serve de alento.

Para mim, a andorinha, lá do alto, simbolizou a indústria cultural, e o pirilampo o intelectual/artista/produtor de cultura independente. Nisso, acho que estamos próximos.

Porém, o foco que você deu em seu olhar, ao artista como indivíduo, eu sequer percebi. O que ficou mais evidente, mesmo, foi a relação dialética entre a cultura, do modo como é produzida, e a indústria cultural, que absorve e empacota (pisca pisca por dentro) essa cultura.

Isso retoma a velha dialética da vanguarda x academia. Entre o inovador/supreendente/asqueroso e o absorvido. E disso poderíamos partir para as camisetas do Che Guevara, as tatuagens em patricinhas, as bandas de rock que viraram POP, etc. etc.

Fosse Gramsci um pirilampo, talvez ele avisasse, ao falar de intelectuais orgânicos: "pirilampem, unidos, mas cuidados com as falsas promessas das andorinhas".

Bem, talvez eu só tenha tido esse olhar ao você evidenciar que tinha uma visão crítica, e talvez porque eu tinha acabado de ver e analisar esse jogo:

http://www.molleindustria.org/node/227

que, como você pode ver, influenciou bastante minha leitura. Não fosse isso, talvez ficasse difícil, já que no texto mesmo, você não chega a dar "pistas".

Quem sabe um título (e somente um título) com um indício, uma pontinha do novelo, para o leitor/ouvinte tentar desmembrar não aproxima você do seu intuito sem forçar uma obviedade?

Algo como "Retrato do artista quando artista", ou algo assim... ha ha.

Abração

Rá! Mentira?! said...

tou com uma saudade monstra. mas tu aparece e não aparece! menino furta-cor.

Guto Leite said...

Acho que é por aí sim, Ique, como, depois de explicado, você também a discussão que eu estava resvalando, talvez devesse mesmo deixar mais algum indício e tals. Agora só pensar se vai no título ou no corpo dos versos... Obrigado meu caro, pelo brilhante auxílio. Aliás, e os roteiros??
Tá, a saudade é recíproca, lindeza. Se furto, furto de quem? Prometo não perder de novo a oportunidade de coincidir nossos delta s.
Abraços e arte!!