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Feb 22, 2011

O valor do processo

Meu avô fez noventa anos há algumas semanas. Como poucas pessoas nessa idade, permanece lúcido, sendo um prazer acompanhar suas muitas histórias (raras vezes ouvi dele uma história repetida) e sua postura sempre humilde em relação à vida.

No dia seguinte à festa, tive a oportunidade de conversar um pouco com ele, relativamente a sós. Foi quando ele me contou de sua infância e que sentia muito não ter aprendido carpintaria com seus tios (meu avô perdeu os pais bem cedo). Com as mãos sobre a barbicha branca, meu avô disse que não entedia por que todos usavam uma forma de madeira e seu tio insistia em fazer os cortes sobre algumas marcas no chão, o que seria muito mais difícil. Ouvindo isso, comentei que talvez o tio de meu avô entendesse o valor do processo. Que antes de ser ou não prático, cortar a madeira diretamente no chão devia despertar ou relembrar aprendizados que ele considerava interessante.

Ah! meu avô soltou brevemente um ar da boca. "Pode ser...", balançou a cabeça afirmativamente.

Tanto quanto a admiração por alguém capaz de ouvir uma pessoa sessenta anos mais nova, ficou-me a sensação de que está aí um dos perdidos de nossos tempos: o valor do processo. Como tudo tem um motivo, um proveito, uma ação, um sentido, pouco importa o processo para se atingir o alvo. O problema é que muito de nossa cultura se deposita no processo. As nuances de significado estão no caminho, não no fim ou no início. À luz dos extremos, publicidade é poesia, auto-ajuda é romance, notícia é crônica, scrap é conto.

Meu avô é do tempo do processo...

Jan 12, 2011

Ótimo 2011

Não sei se há tantos que ainda me acompanham por aqui, mas me senti impelido a explicar um pouco o silêncio.

Sigo escrevendo bastante, sobretudo poesia e canção. Trabalho também com a possibilidade de um romance infanto-juvenil, um livro em verso infantil, uma coletânea de poemas e um novo livro pra 2011. A ver se o tempo vai concordar com tantos planos.

Em 2010, a dissertação de mestrado e o lançamento de zero um, também por sua indicação ao Açorianos e as diversas conversas em torno do livro, me afastaram um pouco deste espaço, ao que pretendo retornar logo e com fôlego.

No mais, um ótimo 2011 a todos, em especial, com arte e paixão! Esperamos um ano novo mais humano e razoável.

Nov 12, 2010

Da força das coisas

Como é ler mais de 700 poemas de autores diferentes? E, eventualmente, imaginar seus autores, ou, ao menos, o rosto que seus autores nos mostram naqueles versos? Quantas pessoas têm essa oportunidade? Por um instante pensei nessas perguntas, antes de começar o trabalho árduo, mas agradável, de ler e selecionar os poemas que estarão presentes nos ônibus e trens de Porto Alegre em 2011.

Recebi o montante de poemas na manhã do dia 29 de setembro, poemas esses que já haviam passado por uma seleção prévia quanto à formatação e ao número de versos, de acordo com o edital. Com a orientação de escolher em torno de cinquenta deles para uma reunião um mês depois, dividi a leitura em sessões diárias de uma ou duas horas quando fui selecionando grupos cada vez menores, até conseguir cinquenta e dois. Passado o prazo, na tarde desta segunda-feira, 25 de outubro, embora todos os cinco jurados (mais Andréia Laimer, Cristina Macedo, Lorenzo Ribas e Sidnei Chneider) estivéssemos com nossos poemas prediletos debaixo do braço (na verdade em pastas, mochilas, envelopes e caixas), nos dedicamos por mais de três horas e meia para chegar ao número exato de quarenta e oito poemas vencedores, a demonstrar, pelo tempo dedicado, que um bom poema é algo que está muito longe de ser consensual, mesmo entre pessoas do ramo.

Com a oportunidade de participar da seleção desta 19ª edição do “Poemas no Ônibus e no Trem” (dezenove anos da iniciativa!), muitas outras questões, além daquelas iniciais, e algumas hipóteses conviveram comigo pelo tempo da triagem. Primeira hipótese: Porto Alegre é a capital mais literária do país. Sinceramente não creio que outras capitais tenham o mesmo índice de participação popular e um concurso tão consistente e há tanto tempo! Primeira pergunta: mas como assim a literatura não tem mais a importância social que tinha? Diz isso para o cidadão que selecionou um poema seu, verificou as regras do concurso e enviou seu poema para participar do certame, diz isso pra ele. Ou como cogitou o professor Luís Augusto Fischer, e se esse cidadão comentou com mais cinco ou seis amigos que participaria? Teríamos cerca de quatro mil pessoas envolvidas direta ou indiretamente com o concurso. Segunda hipótese: o concurso diz muito sobre o gosto da maioria. Encontramos sonetos, redondilhas, poemas visuais, mas há uma expressiva maioria de poemas aos moldes do nosso Romantismo, o que não é demérito, mas deveria ser dado importante a ser quantificado e considerado por quem constitui nossos programas de ensino de literatura. Segunda pergunta: o crescimento constante da participação popular acompanha a taxa de crescimento da cidade ou lhe é superior, denotando um impacto visível do concurso na vida cultural de Porto Alegre?

Dos demais jurados, dos participantes, dos interessados no tema e dos leitores deste texto surgirão novas perguntas e hipóteses que testemunham sobre a força dessa iniciativa e sua importância. Como poeta mais ou menos reconhecido, e já preterido para uma edição anterior do mesmo concurso (com um poema hoje admirado, “as chuvas de porto alegre”), só tenho como desejar que a iniciativa dos “Poemas no Ônibus e no Trem” prossiga por muitos anos e lugares, a provar que ainda existem pessoas que corretamente acreditam na avidez da população pela poesia, pelo literário, pelo lírico.

Aug 21, 2010

L'image juste

A quantidade de postagens neste blog nos últimos cinco meses mostra o quanto estou correndo de um lado para o outro. De certo não é o termo exato, porque pressupõe confusão (existente, claro, mas que não deve ser central).

A imagem, ainda não boa, que me ocorre é a do vaqueiro tentando conduzir o rebanho pelo cerrado seco (eu ia usar o pastor de ovelhas, metodista, europeu e chique, mas em homenagem a Mário de Andrade...). Não boa porque minhas vacas (o mestrado, o livro recém lançado, o cd ser gravado nas próximas semanas, a Brique, meu livro novo, um começo de romance, o Trombone etc.) jamais se movimentam sozinhas e conseguem ter ainda menos iniciativa do que seus originais em couro e carne. Talvez as vacas da cow parade, mas que são pops e coloridas demais para a metáfora.

Tá aí, sou um artesão no começo do século passado, no começo da tarde com uma pilha de trabalhos a serem feitos, com seus diferentes prazos e especificidades. Um o cliente vem buscar daqui a meia hora. Outro o cliente vem ver a cada quinze minutos, mas sempre adia a retirada. Há ainda o que contratou os meus serviços por mensageiro e que, embora seja muito recomendado, assusta-me com a possibilidade de não vir. No canto há aquele outro de que mais gosto, mas que pelo tanto de afazeres, dificilmente poderei trabalhar nele até o fim do expediente. (Isso sem contar que tudo o que sou está com os dias contados, mas, para ser verossímil, meu artesão não pensa muito nisso).

É, quando o real está cheio, não há uma imagem justa.

Aug 6, 2010

Reflexões de rascunho

Chego de viagem e, na velocidade dos olhos, encontro a cidade de Porto Alegre. Fria nesta época do ano, de todos os anos, alterna dia a dia uma chuva gelada e punitiva e baixíssimas temperaturas.

Nem sei se posso dizer isso, mas talvez a cidade seja a prova de que poesia e "tristeza" (coloco aspas por não saber o que é) não sejam práticas indissociáveis.

Sob a chuva ou sob o frio, os sorrisos ficam escassos na cidade destes dias. No entanto, salvo engano, jamais morou nesta cidade um poeta maior. É provável que nem tenha pernoitado em algum de seus antigos hoteis. Tampouco no Brasil quente, litorâneo e corporal de latitudes mais baixas, já eximidos (os poetas menores, todos os poetas brasileiros) pelas temperaturas amenas e pelos sorrisos rápidos. (Talvez o único poeta maior brasileiro seja pernambucano. Terra do sol e do frevo).

Ao poeta é preciso consciência. Extrema, incansável, insone, universal. Os sentimentos que resultam disso são irrelevantes. Às vezes, as palavras que resultam disso são relevantes.

Jun 16, 2010

Três apitos sobre a poesia contemporânea

De volta a Porto Alegre, lá estava eu lendo um teórico francês sobre poesia contemporânea e duas análises me chamaram a atenção, ao que acrescento outra, fruto de uma conversa minha com uma amiga nessa última viagem.

Diz o teórico: diferentemente da máxima de Mallarmé de que a poesia está na palavra e não na ideia, hoje a poesia está presa na palavra. É como se fosse um pouco ingênuo o poeta acreditar que ainda seja possível alguma originalidade de sentido e bastar-se (quase simbolisticamente) no que a palavra pode causar com sua imagem acústica. (Espero ter saído dessa armadilha no livro que estou lançando, porque busquei sair).

Encore le penseur: talvez um dos problemas atuais da poesia seja ela ser um gênero marginalizado dentro da cultura já não hegemônica do livro. Lá está o leitor (onde? onde?) que resolveu sair de casa para comprar um livro ou pedir para algum site mandar um livro pra sua casa. No fim da fila de auto-ajuda, biografias, baixo romance, crônica, alto romance, quadrinhos, livros de moda, aforismos (opa!), está sua escolha por um livro de poesia. Será?

Agora sou eu: a poesia está na contra-corrente do ritmo e da direção da leitura contemporânea. Pelo grande número de símbolos diários de nossa cultura visual, somos treinados desde cedo a ler com rapidez, teleológica e pragmaticamente. Daí vem o poeta e diz: passei um tempo a escolher a palavra exata para este verso, eu preciso que você acredite em mim e que acredite que esta escolha fará alguma diferença na tua vida simbólica. Na pressa do leitor se confudem o poeta brilhante e o poeta medíocre, eles se igualam na linha média da sacada, da boa ideia pra um poema, do puro wit como alimento lírico.

Terão algum sentido estas reflexões?

Apr 30, 2010

"aprender a viver"

Acho "viver" muito vasto e "aprender" muito polêmico para que a expressão "aprender a viver" tenha algum sentido. Ficam só mesmo o sentido retórico, para bares de companhia ruim, e o sentido financeiro, para os autores das centenas de livro sobre o tema. Por ambos não me interesso.

Digo, entretanto, que talvez isso de colecionar segundos tenha feito alguma coisa ao que tendo a chamar de eu (quando me falo). Se estou aprendendo, duvido, mudo por condição. Se viver é, assim, nessas mudanças, talvez esteja vivendo. Viver é inevitável!

Um dia pretendo me ver nos muitos tempos a que chamei de presente, pelo parapeito da memória, e talvez reconheça que mudei. Tomara! Talvez reconheça que não, que ainda sou a parte de dentro do útero recebendo a vingança de outros já nascidos. Que desde lá recebo o carinho dos pais e das vítimas de outros pais para que eu me esqueça do trauma e pense estar aprendendo. Que um dia me veja crescido, e reporduza.

Viver? Terei vivido. Mas sem aprender nada.

Apr 26, 2010

nova casa

Salve, meus caros!

Escrevo para informar de uma nova casa onde vou escrever a cada dia 27, portanto, amanhã começo. Maná Zinabre! Casa de uma galera sempre muito antenada, tanto com a necessidade de experimentar esteticamente o gênero a que se aplicam, quanto com importância social do artista em seu entorno. É uma honra poder dividir espaço com tanta alma! Vale aquela conferida, eu acho. Grande abraço!

p.s.: meu livro finalmente chegou! Gostei muito do resultado! Possíveis datas de lançamento: Campinas (08/06) e Porto Alegre (25/06). Todos sempre bem-vindos, sempre!

Apr 19, 2010

Entre prazeres e dores

Ainda no aguardo do livro, minha vida tem se atolado de muitos pequenos prazeres. Vê-los assim reunidos pelas horas de que disponho, até parece que viram aquilo que não propunham. As forças mais agradáveis, o amor inofensivo, sair pra viver à noite, a leitura de um bom livro, tudo são quinas e cacos. Poderia ser pior, prazeres de que não vivo. Concordo (a contragosto). Mas ontem fiquei zonzo pela primeira vez em muito por conta de tanto trabalho que talvez pagarão as contas, talvez irão pelo ralo. Com o perdão da imagem, quando as cidades se forem, encontrarão nos esgotos prazeres de muita gente e, talvez, algumas dores.

Apr 13, 2010

Da tristeza poética

Achei hoje uma resposta que eu procurava há muito tempo! Lá estava eu lendo a Teoria do Romance e (aspas fajutas): "a epopeia é uma época em que a expectativa da ação e a ação coincidem, sem muito espaço para a filosofia, que versaria sobre a diferença entre a ação e o desejo". Cá na minha cabeça, do mesmo bazar das aspas, vale o mesmo pra poesia. Poeta feliz não escreve, vai ao shopping. Poeta feliz não reflete, puxa o brinde. E não estou dizendo ficar em casa, tomando alguma coisa, ouvindo coisa pior. Isso é a valorização da própria tristeza, o que consegue ser ainda mais deprimente da perspectiva dos outros (embora pro próprio "poeta" soe um tanto vazio). Digo sobre ter sempre sujeira nos óculos, De olhar para a tristeza pela face neutra ou triste. Da se compadecer dos outros, de sentir. Nessa tristeza se vive e dela se fazem poetas.

p.s.1: hoje conheci um anjo!

p.s.2: tem novidades e livros de presente lá no Trombone, apareçam!

Apr 9, 2010

Academia

Nossos universos, aqui costumeiros, não cósmicos, são povoados por milhares de coisas simples todos os dias. Meu auto-engano de ser artista sempre relegou o que não é arte a um segundo plano. Os anos, contudo, vêm trazendo de volta parte desses prazeres que eu antes tratava com despeito. Um deles certamente é a discussão acadêmica. Almocei com três mestres hoje e depois me reuni com mestrandos para discussões sobre Auerbach e Moretti. Mais do que nas leituras e interpretações, o verdadeiro prazer do exercício intelectual reside no desvendar do raciocício no momento da discussão. O insight. A mudança de rumo. As muitas hipóteses propostas e descartadas. Às vezes sobra um fiapo, que depois será seguido, com bibliografia e esforço, para torná-lo temporariamente evidente aos outros. Quem me dera todo meio acadêmico pelos quais já passei na vida fossem assim! Quem me dera meu atual meio acadêmico (aqui e em congressos em outros lugares) fosse assim todo o tempo!

Mar 27, 2010

Herbert de perto

Tive um bom final de semana de filmes. Aproveitei para ver Guerra ao Terror, que é bom filme, mas não melhor do que Bastardos Inglórios, para lhe tomar os prêmios. Vi Julia & Julie e realmente há pouco o que dizer de Meryl Streep. Mesmo em papéis extraídos de personagens exageradas na vida real, como a cozinheira, ela consegue elevar o patamar da arte dramática (há uma cena maravilhosa quando ela descobre que a irmã está grávida, vale conferir). Também vi Herbert de perto e é desse que consturo nosso papo neste espaço.

Não, não saí do filme achando que Herbert canta bem ou que é um dos melhores compositores da canção nacional. Salvo "Alagados", "Uma brasileira" e uma ou outra canção de amor, realmente o admiro mais como guitarrista do que como compositor ou intérprete. Me impressionou a força do homem. Claro que muitos sofrem acidentes ou perdem pessoas queridas e precisam enfrentar a vida de novo, com renovadas motivações. O que me impressiona é alguém que não quebre após descobrir que o tudo que sempre teve é quase efêmero se comparado à capacidade do acaso em despedaçar as coisas. "A vida é um sopro", como disse Niemeyer em outro documentário famoso.

Da infância de lugar em lugar com a família, das arruaças em Brasília (fora do alcance policial, pelo pai militar), ao sucesso dos Paralamas (de passagem, absolutamente justo porque Herbert é talentoso!), ele mesmo diz no filme que conseguiu tudo o que sempre quis na vida. Uma cena tocante é o Herbert depois do acidente olhando para o Herbert dizendo essa frase e comentando: "é, o mané aí não sabe do que está falando".

Ver o filme do Herbert me deu pressa. Pressa porque não sei quanto tempo ainda fico por aqui (um assalto na semana passada talvez tenha ajudado nessa sensação). Se existe algum propósito em eu escrever desde sempre, compor como um maluco (os músicos meus amigos fazem apostas, piadas, desafios sobre meu lance com composição), buscar a precisão da palavra, viver para a arte, eu quero cumprir o propósito enquanto ainda tenho tempo. Se não há propósito algum, preciso aproveitar ao máximo minhas condições (históricas, ideiológicas, discursivas) pra produzir mais e na melhor qualidade que conseguir, porque pode ser que isso mude a vida de alguém, ou um momento da vida de alguém, que já é um universo.

Já vi ou fique sabendo de pessoas que dançaram com minhas músicas, mudaram o que pensavam diante dos meus poemas, se divertiram com meus contos, me abraçaram e se emocionaram quando conversávamos... não há como medir isso, nem o valor nem o alcance. Embora nos outros instantes eu tenha dúvidas sobre tudo, nestes me sinto totalmente justificado, e quero fazer mais e mais, e ao máximo.

Mar 23, 2010

Notícias

Hoje venho só deixar uma notícia. A partir de amanhã, provavelmente, estarei participando da oficina proposta pela editora 8 Inverso, que buscou reunir prosadores de diferentes estilos e idades no intuito de aprimorar-lhes a escrita e, quem sabe, fechar contrato com alguns deles ao fim da série de exercícios.

Me alegrei porque é um dos primeiros reconhecimentos que tive como prosador. Um escritor, talvez Cláudio Willer, há muitos anos se interessou. Depois outro autor, Fischer, elogiou a desenvoltura em sua oficina de contos. Agora isso.

Embora me esforce muito (diferente do poema), gosto bastante de escrever contos ou o que quer que sejam. Espero aprender bastante na oficina e parabenizo muito os demais selecionados (e todos que participaram).

Grande abraço e arte!

Mar 3, 2010

Tempos de mudança

As ausências, aqui e no Trombone, estão bem justificadas. São tempos de mudança.

Antes fossem mudanças em larga escala - das quais continuamos necessitados -, mas estas são de pequeno espectro: família, casa, ano. Tudo bem, absolutas no plano individual, mesmo que pequenas para os outros.

Como somos o universo das nossas impressões, talvez as grandes mudanças individuais tenham algum revelo fora das gentes.

Trago dois portugueses para dizer por mim sobre estes tempos.

"O que eu sou hoje é como a umidade no corredor do fim da casa,
Pondo grelado nas paredes...
O que eu sou hoje (e a casa dos que me amaram treme através das minhas lágrimas),
O que eu sou hoje é terem vendido a casa,
É terem morrido todos,
É estar eu sobrevivente a mim-mesmo como um fósforo frio..."[...] (Álvaro de Campos)

"Mudam-se os tempos, mudam-se as vontades,
Muda-se o ser, muda-se a confiança;
Todo o mundo é composto de mudança,
Tomando sempre novas qualidades.

Continuamente vemos novidades,
Diferentes em tudo da esperança;
Do mal ficam as mágoas na lembrança,
E do bem, se algum houve, as saudades.

O tempo cobre o chão de verde manto,
Que já coberto foi de neve fria,
E em mim converte em choro o doce canto.

E, afora este mudar-se cada dia,
Outra mudança faz de mor espanto:
Que não se muda já como soía." (Camões)

Feb 22, 2010

nosso silêncio diário

Terminado o conto (que rapidamente me lembrou dos esforços que faço para escrever prosa), volto em algumas reflexões sobre o silêncio.

Com as férias universitárias, as muitas obrigações em casa e minha mãe em viagem, tenho ficado longos intervalos de tempo em silêncio. Alguns dias sempre, às vezes uma semana, quando não ligam por engano, ou quando não tenho que trocar breves palavras com as funcionárias do supermercado.

Nesses momentos, minha voz vacila como se fosse possível errar e desaprender. Costuma sair baixa, grave, para dentro, e não raro ouço um "ahn?" como resposta. Talvez seja assim sempre. Só não o percebemos porque ficamos pouco sem falar, temos urgência do verbo. A voz, toda vez que se exibe no universo audível, rompe camadas densas de silêncio ao custo da força inteira da alma.

A voz ordinária é ausente de alma, por isso não faz força.

Nesses dias de silêncio, na verdade, tendo a falar comigo. Não alto, refletindo - penso que não preciso falar fora para escutar dentro, esse diálogo eu travo silenciosamente -, mas para sentir o pulso dos meus versos, de todos os textos que escrevo, diariamente.

Imagina a falta de jeito da minha boca, acostumada nos últimos dias a só dizer poesia, quando é solicitada a responder a uma fala de máquina: "tem cartão bom clube?"

Não. A única resposta possível.

Feb 10, 2010

As possibilidades da vanguarda

Das poucas discordâncias teóricas que tenho com meu orientador - e é bom que existam, pois não discordar em nada de alguém que se admira é ainda pior do que discordar de tudo -, a questão da vanguarda certamente ganha um lugar central.

Concordo com ele e também tenho poucas dúvidas de que a vanguarda é, no todo ou em parte, um reflexo da exigência humana pelo novo, especialmente acirrada nestes tempos de tudo-mercadoria. Concordo ainda no que tange ao perigoso quadro de valores que uma cultura de vanguarda implanta, o do novo a qualquer custo, que acaba gerando patéticos objetos de arte até alguém vire, possivelmente uma criança, e diga "mas, peraí, isso aí é só uma lata de lixo" ou "papai, por que ele usou essa rima?". Não tenho filhos, por isso são todos poetas.

Discordo, entretanto, quanto à impossibilidade de existência contemporânea das vanguardas. Acredito piamente (talvez seja esse o advérbio exato) que ainda há espaço para elas e que o problema de sua atual inexistência, ou pior, sua proliferação frágil (que acaba dando no mesmo) é mais profundo do que sonha nossa vã prospecção.

Numa geração iludida com o oásis do conhecimento infinito e virtual, e, na prática, com pouquíssimo tempo para pesquisa estética séria, a busca pessoal e intuitiva por novas disposições formais para a própria obra acaba cedendo a resoluções fáceis, extremamente provisórias e apressadas. Problema amplificado justamente pela exposição democrática (que acho ótima) a diluir bons artistas na multidão de auto-enganos.

Não sei se vou chegar a ver melhorias nesse quadro (o que ironicamente me faz concordar com meu orientador, já que os pontos só valem mesmo enquanto estou vivo, não é?), mas reafirmo minha discordância, na certeza de que o comum (e saudável) é ser cético quanto à vanguarda. Sempre foi assim. Sempre se desconfiou da possibilidade de rearranjo formal das coisas, até surgir um artista capaz de fazê-lo com maestria.

Isto é, pode também não ser mais possível e se tornar a última e definitiva derrota de nossa cultura.

Feb 8, 2010

a Gabriel Gramasco

Nos meus tempos de especialização, bolei uma hipótese engraçada sobre a noção aristotélica de verossimilhança.

(Perdoem-me o uso do conceito, mas foi inescapável. Aos não iniciados, trata-se da ideia de que numa narração de qualquer tipo é necessário que cada parte esteja refletida no todo e o todo esteja em cada parte. Trocando em miúdos, uma narração verossímil é aquela em que nada falte ou sobre. Simples assim.)

Voltando à hipótese, qual era? Esta: a verossimilhança é a forma narrativa que encontramos para nos afastar da morte, que é, por definição, avessa a toda narrativa.

Para a morte não importa se está no começo da história, no meio, se vai beijar o mocinho, descobrir a tramoia, desmascarar o vilão etc., ela chega a qualquer momento e encerra a narrativa, uma espécie de Thanatos ex-machina. A morte tampouco é narrada, salvo em histórias religiosas ou de cunho satírico (como o nosso célebre Brás).

Ao nos depararmos com uma narrativa verossímil (abrindo um romance, assistindo a um bom filme...), temos a ilusão de que também no mundo as coisas se dão coerentemente, o que, com efeito, não ocorre. A morte não espera que nossa vida faça sentido pleno antes de se desfazer de nós.

p.s.1: ontem descobri que Umberto Eco, sem falar de Aristóteles, está comigo nesta hipótese maluca.
p.s.2: ontem descobri que um conhecido meu muito gentil morreu num acidente de moto.

Feb 4, 2010

O gênio e o idiota

Sempre me condenam quando digo que o tempo não tem feito bem para os homens.

Normalmente contra-argumentam de duas formas. Em primeiro lugar, porque há boas razões para achar que hoje vivemos em um tempo melhor do que nunca. Em segundo, porque parece não haver possibilidade de medir tempos ou homens melhores uns do que os outros.

Tentando não ser chato, vou esmiuçar brevemente o argumento.

A multidão iguala o gênio e o idiota. Há cem anos, talvez menos, vivemos na era das multidões, de onde é difícil, sendo gênio ou idiota, dizer "eu" sem numerosa oposição.

Embora já tenha havido algumas catástrofes por gênios execráveis (catástrofe é eufemismo), teoricamente é mais fácil cercear um único gênio do que uma multidão de idiotas. Sobretudo a partir do ponto em que a multidão de idiotas passou a legitimar-se discursivamente.

Como ser gênio exige mais sacrifício do que ser idiota, o número de idiotas tem aumentado e estes só se sentem seguros em meio às multidões.

Percebem aonde não quero chegar?

Absolutamente todos os dias eu me enraiveço com algum idiota ilustre na televisão.

p.s.: por motivos óbvios, dispenso citar a multidão de gênios que já comentaram algo parecido.

Jan 30, 2010

Tudo bem? Então tá!

Posso estar errado - sempre posso, normalmente estou -, mas nossa auto-imagem como sociedade brasileira contemporânea mudou um bocado dos anos noventa para cá, não mudou?

Lembra como nos preocupávamos com certa divisão desigual da renda? Com o aumento da população carcerária? Com a educação precária da população? Com a baixa qualidade de parte do ensino no Brasil? Com o domínio do mercado por um número cada vez menor de grandes corporações?

Poderia se pensar - sempre se pode, normalmente - que se trata de uma melhora nesta situação. Em parte, é correto pensar assim. Realmente houve uma melhora. A questão é que houve uma melhora pra gente, pra gente e mais uns cinco países. Ganhamos a corrida continental contra a Argentina e ainda não entendemos bem por que nossos vizinhos de fronteira nos chamam de "os Estados Unidos da América do Sul".

Que me desculpem os otimistas, mas pesquisas globais indicam que as mesmas tendências dos "90's" continuam e talvez tenham se agravado (até a crise de 2009, pelo menos). Então, onde está o resto dessa conta? Sabe quando pegamos alguns números, subtraímos, subtraímos, e a conta não bate?

O que fizemos, de fato, foi passar o abacaxi adiante. Melhor, trocamos o abacaxi pelo petróleo, o Zé Carioca pelo estrangeiro arrivista, a Carmen Miranda pela Wanessa Camargo. Pra vocês tudo bem? Então tá!

Jan 23, 2010

Ensaio pouco inspirado

Não acredito na inspiração dos românticos. Aquela que assalta o artista, vinda de "algures", e traz uma obra de arte pronta. Também não acredito na inspiração dos (digamos assim, pela simetria) clássicos, que é fruto exclusivo de trabalho, dedicação, esmero, aperfeiçoamento. Se eu fosse um pouco mais niilista, diria que não existe inspiração e acabaria a conversa por aqui.

No mundo ideal das boas polêmicas e da opinião ainda levada em conta, choveriam dezenas de e-mails de pessoas testemunhando como já foram tomadas de inspiração - até mesmo alguns amigos testemunhando como já me viram inspirado - ou citando exemplos de pessoas que, depois de muito trabalharem, acharam formas convincentes para realizar suas artes. Pois bem, como é o que a lógica me deixa, acredito na conjunção das duas.

Só alguém muito obtuso, ou de pouco talento, negaria a inspiração romântica. O momento em que você se vê tomado por uma rotação diferente dos sentidos e em poucos minutos é capaz de compor um poema, uma canção, uma máxima etc. de grande coerência interna e poucos erros, considerando o tempo que demorou para fazer. Seria epifania, um acesso breve ao inconsciente coletivo, um entendimento limitado do sentido completo do mundo, das pessoas ou das palavras, dificilmente repetido em estado de não inspiração. Não sei, algo assim, dificilmente verbalizável mesmo. Também não sei como funciona a inspiração em obras de maior fôlego: romances, peças, epopeias e cia, embora conheça romances e peças realmente inspirados.

Igualmente só o mesmo obtuso, ou outro, afirmaria de cara limpa que a prática não ajuda tudo isso. Depois de algumas centenas de poemas, tenho muito mais segurança sobre o pulso do verso, a ideia que não vai dar em nada, a palavra que dificilmente se acerta, o sintagma non grata. E olha que ainda me sinto bastante neófito na arte poética! É evidente que a prática, se não leva à perfeição, afasta da precariedade estética, ao menos. Conheço, entretanto, algumas dúzias de escritores muito esforçados e de pouca inspiração, que vão aos poucos sendo cobertos pela areia do tempo.

Inspiração, para este ensaísta pouco inspirado, é uma tradução particular para "vontade"! Não qualquer vontade, mas A vontade primária do sujeito. Todos, nesta perspectiva, lidariam com algum grau de inspiração (uns mais, outros menos), mas só alguns viveriam a felicidade de sentir que suas vontades são adequadas ao tempo em que vivem, enquanto que a maioria, postumamente, é que costuma ser premiada.

No frigir dos ovos, meu amigo, trabalhe, estude, pratique aquilo que tem vontade! Caso se inspire, certamente haverá uma chance maior de estar criando algo interessante e, por conseguinte, fazer parte da loteria do reconhecimento. Ainda tem o dinheiro, o poder, a beleza física, o acaso e outros tantos fatores que viciam essa loteria, certo? Certíssimo! Mas pensar nisso, sobretudo atualmente, é coisa que não recomendo, com o risco de simplesmente abdicar da vontade e conseguir dinheiro fácil em alguma ocupação segura.

Nossa época precisa de pessoas inspiradas! (uma frase perigosamente rebaixada a lugar comum)