Showing posts with label poema. Show all posts
Showing posts with label poema. Show all posts
Sep 3, 2010
casamento
Uma querida amiga vai casar e me dispus a escrever o poema que estará sobre as mesas na festa. Ocasião perfeita para versos à moda antiga. Viva os noivos!
May 21, 2010
Cada poema tem seu canto
E não é que recebo a graciosa mensagem de Dinorah dizendo que achou meu poema "H" de "Poemas lançados fora" e queria postá-lo em seu blog. Mas claro! Não é todo dia que o poema acha um canto justo que lhe guarde. O poema sempre foi teu, Dinorah, só esteve emprestado comigo. Se primeiro o vimos num livro que eu assinava, é que nossos olhos não costumam ver os poemas "em estado de dicionário", quando eles pairam sob a materialidade das coisas. Eu e ele, o poema, agradecemos muito que veio levá-lo para casa.
H
No princípio todas as palavras vinham com agá
antes.
Certo dia, por não se saberem úteis,
resolveram deixar a empresa.
Como sempre há fura-greves
e dedos-duros (embora estes não se encaixem na contenda,
o que em nada impede posarem de figurantes),
ficou o agá de hoje, de há, de halo,
de hipogrifo.
Dinorah, faceira que só ela,
hora tem, ora não tem
o pensado,
mas não dito.
Se bem que, com Dinorah,
o agá não é de princípio.
H
No princípio todas as palavras vinham com agá
antes.
Certo dia, por não se saberem úteis,
resolveram deixar a empresa.
Como sempre há fura-greves
e dedos-duros (embora estes não se encaixem na contenda,
o que em nada impede posarem de figurantes),
ficou o agá de hoje, de há, de halo,
de hipogrifo.
Dinorah, faceira que só ela,
hora tem, ora não tem
o pensado,
mas não dito.
Se bem que, com Dinorah,
o agá não é de princípio.
May 14, 2010
eco poético
Abri o blog hoje sem muito a dizer. Sono mais mestrado menos tempo é igual a pouca literatura, poderia ser uma síntese equivocada. Vou visitar, então, os blogs que gosto de ler e achei um poema bem interessante no blog do poeta Heyk Pimenta (http://heykpimenta.blogspot.com/) e resolvi tentar um eco aqui nestas paragens. Corram lá primeiro, se puderem, que é onde está o sentido mais espesso do poético, para depois conferirem meu eco-brincadeira. Muita arte a todos e obrigado ao poeta Pimenta!
p.s.: desculpem-me a obrigatoriedade de precisar clicar na imagem, mas é que o poema era longa e tem variações importantes nas margens dos versos.
p.s.: desculpem-me a obrigatoriedade de precisar clicar na imagem, mas é que o poema era longa e tem variações importantes nas margens dos versos.
May 10, 2010
O sonho límpido da língua
Participei há duas semanas de um programa de rádio (Dois Pontos) sobre meu novo livro, zero um, que será lançado no próximo mês, com lançamentos aqui em Porto Alegre e em Campinas (mas que já pode ser comprado pelo site da 7 Letras ou na Palavraria, em Porto Alegre). Das muitas perguntas de caráter mais ou menos amplo que respondi, uma ficou ecoando na minha cabeça e só agora eu consigo dar a resposta que queria ter dado no ar.
Assim me perguntou o professor Paulo Seben (aspas arrazoadas), notando que meus poemas variam muito sua forma gráfica no espaço da folha: "quais os critérios que você usa para alinhá-los no centro ou à esquerda?"
Na hora, eu respondi que se tratava de um recurso a mais, que eu tinha aprendido de um poeta jardineiro que eu conheci há tempos, e que depois tinha lido e estudado os concretistas, o que aumentou minha certeza na validade do recurso e na importância de entender o poema TAMBÉM como imagem.
Pois bem, a resposta que gostaria de ter dado é que a defesa de que o poema em si (por seu corpo) não pode constituir uma forma a ser significada vem da crença de que a poesia precisa ser veiculada pela linguagem material com o mínimo de perda possível, o que é claramente ingênuo. A linguagem, todos sabem, está longe de ser transparente e, com generosidade, pode ser considerada, no máximo, opaca.
Manter incólume a forma do poema parece dizer que o verdadeiro sentido segue detrás da linguagem e é ele que o leitor deve inferir em sua leitura. Errado! (Não gosto de ser tão dogmático, me desculpem) A linguagem, inclusive em seus caracteres físicos, constitui boa parte do sentido de um poema, aliás, de todos os sentidos oriundos da linguagem, na verdade. Se eu digo "mato", o leitor pensará na vegetação, no presente do verbo matar, nas formas figuradas como "matar o tempo", "matar aula" etc., mas também pensará nessa nasal interrompida pela oclusiva surda, como se dentro da palavra crescesse uma planta (olha o "t" aí de novo), como um arbusto no meio do mato. Pensará talvez que é uma palavra que demora a nascer, que passa um infinito ainda no meio dos lábios até sair e logo acaba. Creio que, por ser arbitrário, há muito de não arbitrário na escolha que as culturas deram para seus sígnos.
Não? Sim? Na dúvida, por achar que sou poeta e uso a língua como minha matéria de arte, preciso lidar com esse sentido oculto, que corre no nosso inconsciente linguístico para estacionar nalgum canto do verbo, para se atirar subitamente no abismo do nada. Nada? De alguma forma acho bonito esse jeito de matar o nada.
Assim me perguntou o professor Paulo Seben (aspas arrazoadas), notando que meus poemas variam muito sua forma gráfica no espaço da folha: "quais os critérios que você usa para alinhá-los no centro ou à esquerda?"
Na hora, eu respondi que se tratava de um recurso a mais, que eu tinha aprendido de um poeta jardineiro que eu conheci há tempos, e que depois tinha lido e estudado os concretistas, o que aumentou minha certeza na validade do recurso e na importância de entender o poema TAMBÉM como imagem.
Pois bem, a resposta que gostaria de ter dado é que a defesa de que o poema em si (por seu corpo) não pode constituir uma forma a ser significada vem da crença de que a poesia precisa ser veiculada pela linguagem material com o mínimo de perda possível, o que é claramente ingênuo. A linguagem, todos sabem, está longe de ser transparente e, com generosidade, pode ser considerada, no máximo, opaca.
Manter incólume a forma do poema parece dizer que o verdadeiro sentido segue detrás da linguagem e é ele que o leitor deve inferir em sua leitura. Errado! (Não gosto de ser tão dogmático, me desculpem) A linguagem, inclusive em seus caracteres físicos, constitui boa parte do sentido de um poema, aliás, de todos os sentidos oriundos da linguagem, na verdade. Se eu digo "mato", o leitor pensará na vegetação, no presente do verbo matar, nas formas figuradas como "matar o tempo", "matar aula" etc., mas também pensará nessa nasal interrompida pela oclusiva surda, como se dentro da palavra crescesse uma planta (olha o "t" aí de novo), como um arbusto no meio do mato. Pensará talvez que é uma palavra que demora a nascer, que passa um infinito ainda no meio dos lábios até sair e logo acaba. Creio que, por ser arbitrário, há muito de não arbitrário na escolha que as culturas deram para seus sígnos.
Não? Sim? Na dúvida, por achar que sou poeta e uso a língua como minha matéria de arte, preciso lidar com esse sentido oculto, que corre no nosso inconsciente linguístico para estacionar nalgum canto do verbo, para se atirar subitamente no abismo do nada. Nada? De alguma forma acho bonito esse jeito de matar o nada.
Apr 19, 2010
Entre prazeres e dores
Ainda no aguardo do livro, minha vida tem se atolado de muitos pequenos prazeres. Vê-los assim reunidos pelas horas de que disponho, até parece que viram aquilo que não propunham. As forças mais agradáveis, o amor inofensivo, sair pra viver à noite, a leitura de um bom livro, tudo são quinas e cacos. Poderia ser pior, prazeres de que não vivo. Concordo (a contragosto). Mas ontem fiquei zonzo pela primeira vez em muito por conta de tanto trabalho que talvez pagarão as contas, talvez irão pelo ralo. Com o perdão da imagem, quando as cidades se forem, encontrarão nos esgotos prazeres de muita gente e, talvez, algumas dores.
Apr 15, 2010
Chegando...

Hoje a editora em falou que meu novo livro acaba de partir do Rio de Janeiro e no começo da semana que vem o terei em mãos. Não sei se é motivo para festa - há uma dor estranha na alegria de se publicar um livro -, mas, pelo senso comum, comemoro postando mais um dos poemas que o compõem. Este, aliás, é bastante antigo, comecei-o há uns três anos. Palavra aqui, palavra ali, ele foi mudando até chegar a esta versão difinitiva (por enquanto).
Apr 8, 2010
Cuidado
Venho falar de força e de cuidado.
Sem querer voltar à égide da temperança, está cada vez mais claro para mim que exagerar na força, sobretudo os fortes, é extremamente perigoso. Acompanho alguns "formadores de opinião" no Twitter e é impressionante como as pessoas conseguem ser categóricas com facilidade. Não muito desastroso em opiniões mais óbvias, mas devastador no que tange a casos controversos. Há certa loucura em todas as cruzadas.
Vou falar por versos, que talvez fale melhor.

(poema do livro "zero um" que sai no fim deste mês pela 7 Letras)
Sem querer voltar à égide da temperança, está cada vez mais claro para mim que exagerar na força, sobretudo os fortes, é extremamente perigoso. Acompanho alguns "formadores de opinião" no Twitter e é impressionante como as pessoas conseguem ser categóricas com facilidade. Não muito desastroso em opiniões mais óbvias, mas devastador no que tange a casos controversos. Há certa loucura em todas as cruzadas.
Vou falar por versos, que talvez fale melhor.

(poema do livro "zero um" que sai no fim deste mês pela 7 Letras)
Mar 17, 2010
Seguem as mudanças
E seguem as mudanças deste lado de cá do mundo. Vou tentando manter o ritmo das criações e leituras.
Quanto àquelas, meu próximo livro vai em breve para o prelo e o seguinte, à altura da página 30. Resolvi engrenar também um livro infantil que andava um tanto parado e vou finalmente reunir o Júlio César para um formato publicável.
Quanto a estas, estou lendo alguns livros a tacape, como o de Lima Barreto, ao passo que também me delicio com João do Rio. O mais é pra pesquisa, foco que deve me exigir boa parte do tempo este ano.
Enfim, ainda um pouco sem tempo para me dedicar completamente aos meus blogs, mas com alguma felicidade, posto que devo ter bem mais tempo e logo. Deixo, como fogos de artifício, os primeiros versos do meu possivelmente primeiro livro infantil.
Sempre força e arte!
BITOCA (texto: guto leite; argumento: paula sabagga & guto leite)
Nas épocas mais remotas,
se não me falha a memória,
houve uma certa Bitoca
de quem lhes conto esta história.
Filha de um rei camarada
e de uma rainha amiga,
os seus castigos na infância
eram conversas “compriiiiidas”.
Aos poucos virou mocinha,
mas quem buscou alegria
no rostinho da princesa,
acabou tendo tristeza.
Parece que se sentia,
entre todas as amigas,
a princesinha mais feia
e também a mais sozinha.
Não sei se para animá-la
ou se estava planejado,
deram uma grande festa
pelo seu aniversário.
A louca Fada dos Beijos,
prima da Fada dos Dentes,
foi uma das convidadas,
era amiga dos parentes.
Notando que a princesinha
se encontrava cabisbaixa,
para vê-la sorridente
lançou nela sua mágica.
(e daí segue...)
Quanto àquelas, meu próximo livro vai em breve para o prelo e o seguinte, à altura da página 30. Resolvi engrenar também um livro infantil que andava um tanto parado e vou finalmente reunir o Júlio César para um formato publicável.
Quanto a estas, estou lendo alguns livros a tacape, como o de Lima Barreto, ao passo que também me delicio com João do Rio. O mais é pra pesquisa, foco que deve me exigir boa parte do tempo este ano.
Enfim, ainda um pouco sem tempo para me dedicar completamente aos meus blogs, mas com alguma felicidade, posto que devo ter bem mais tempo e logo. Deixo, como fogos de artifício, os primeiros versos do meu possivelmente primeiro livro infantil.
Sempre força e arte!
BITOCA (texto: guto leite; argumento: paula sabagga & guto leite)
Nas épocas mais remotas,
se não me falha a memória,
houve uma certa Bitoca
de quem lhes conto esta história.
Filha de um rei camarada
e de uma rainha amiga,
os seus castigos na infância
eram conversas “compriiiiidas”.
Aos poucos virou mocinha,
mas quem buscou alegria
no rostinho da princesa,
acabou tendo tristeza.
Parece que se sentia,
entre todas as amigas,
a princesinha mais feia
e também a mais sozinha.
Não sei se para animá-la
ou se estava planejado,
deram uma grande festa
pelo seu aniversário.
A louca Fada dos Beijos,
prima da Fada dos Dentes,
foi uma das convidadas,
era amiga dos parentes.
Notando que a princesinha
se encontrava cabisbaixa,
para vê-la sorridente
lançou nela sua mágica.
(e daí segue...)
Mar 15, 2010
poemas
Ainda entre caixas, carretos, o leva-e-trás das coisas físicas e imediatas, posto outro poema da velha guarda. Feliz porque a Flávia indaga se devo mudar. Feliz porque a Val leu, compartilhou e amou, amor de poeta vale cem czares. Só mudo quando algo puxa para onde vou, quando não há mais casa. Sou mineiro, por isso "terra" é a minha terceira palavra. Espero com as novas linhas, que ainda demoram a sair, decepcionar pouco os olhos de linho que me lêem. Talvez eu tenha achado um jeito novo. Talvez seja o mesmo novo de tantos outros. Ainda há espaço, com tudo, para os poemas de sempre. O tempo máximo e o nulo protegem as boas palavras.
parto
não importa o quanto eu sofra
não importa o quanto eu vença
não importa o quanto eu corra
a dança que mostre o vento
os passos que eu mate ou morra
não importam meus amores
o tempo desta sentença
não importam minhas cores
aquilo que eu tome ou roube
a filha o cofre ou a crença
não importa o quanto eu sinta
as mágoas da diferença
ou sem sentir que eu inveje
pela fibra posta em prova
que eu deseje quem morrer
não importam minhas glórias
a toga de bacharel
não importam minhas falhas
não importam meus cristais
não importa o quanto eu saiba
quantas casas decimais
não importa se na prensa
eu quase perder a mão
os dentes que me restarem
para sorrir amarelo
não importa que eu enfeite
a ponte para o castelo
sobre um rio de judeus
não importa que eu livre
do campo a foice o martelo
as medalhas na parede
nos nomes o medalhão
não importa que eu calce
a alpercata e a sede
que eu sinta a fome do chão
não importa que assegure
a permanência dos bens
não importa que eu procrie
não importa que eu recrie
as formas do bem dizer
não importa o quanto eu grite
não importa quanto sangue
minha mãe possa perder
tudo será destruído
tudo será redimido
no instante em que eu nascer
parto
não importa o quanto eu sofra
não importa o quanto eu vença
não importa o quanto eu corra
a dança que mostre o vento
os passos que eu mate ou morra
não importam meus amores
o tempo desta sentença
não importam minhas cores
aquilo que eu tome ou roube
a filha o cofre ou a crença
não importa o quanto eu sinta
as mágoas da diferença
ou sem sentir que eu inveje
pela fibra posta em prova
que eu deseje quem morrer
não importam minhas glórias
a toga de bacharel
não importam minhas falhas
não importam meus cristais
não importa o quanto eu saiba
quantas casas decimais
não importa se na prensa
eu quase perder a mão
os dentes que me restarem
para sorrir amarelo
não importa que eu enfeite
a ponte para o castelo
sobre um rio de judeus
não importa que eu livre
do campo a foice o martelo
as medalhas na parede
nos nomes o medalhão
não importa que eu calce
a alpercata e a sede
que eu sinta a fome do chão
não importa que assegure
a permanência dos bens
não importa que eu procrie
não importa que eu recrie
as formas do bem dizer
não importa o quanto eu grite
não importa quanto sangue
minha mãe possa perder
tudo será destruído
tudo será redimido
no instante em que eu nascer
Mar 10, 2010
um poema
Estou trabalhando num novo tipo de poética que contorna um pouco a particularidade do poema, por isso não tenho trazido tantos versos a este espaço. Vez ou outra, contudo, me aparecem alguns poemas antigos - antigos para mim, claro, novidade é necessidade da coisa, não da palavra - e é sempre bom voltar à velha forma de versar, conduzir o verbo por versos e estrofes. Segue um poema.(Como é bom poder dizer isso saindo do turbilhão que é para mim aquele outro jeito de escrever.)
ocaso
beijar-te os lábios
pele sempre nua
como luvas
saber que a palma
quando reclusa
é noturna
mas em vôo aberto
faz-te inquieta
ou segura
medir tuas pernas
pelos palmos
sol
saber o ângulo
exato
em que te acalmo
e o outro
que te nasce
por detrás da casa
para pôr-te depois
e além
saber-te as entradas
janelas e portas
falhas
entre as tábuas
onde guardas
a chave
do prazer
ter-te plena
para perder
muito
constantemente
até ver
de novo
teus lábios
aparentemente
ilesos
rebuscar
um jeito justo
de sofrer
ocaso
beijar-te os lábios
pele sempre nua
como luvas
saber que a palma
quando reclusa
é noturna
mas em vôo aberto
faz-te inquieta
ou segura
medir tuas pernas
pelos palmos
sol
saber o ângulo
exato
em que te acalmo
e o outro
que te nasce
por detrás da casa
para pôr-te depois
e além
saber-te as entradas
janelas e portas
falhas
entre as tábuas
onde guardas
a chave
do prazer
ter-te plena
para perder
muito
constantemente
até ver
de novo
teus lábios
aparentemente
ilesos
rebuscar
um jeito justo
de sofrer
Mar 3, 2010
Tempos de mudança
As ausências, aqui e no Trombone, estão bem justificadas. São tempos de mudança.
Antes fossem mudanças em larga escala - das quais continuamos necessitados -, mas estas são de pequeno espectro: família, casa, ano. Tudo bem, absolutas no plano individual, mesmo que pequenas para os outros.
Como somos o universo das nossas impressões, talvez as grandes mudanças individuais tenham algum revelo fora das gentes.
Trago dois portugueses para dizer por mim sobre estes tempos.
"O que eu sou hoje é como a umidade no corredor do fim da casa,
Pondo grelado nas paredes...
O que eu sou hoje (e a casa dos que me amaram treme através das minhas lágrimas),
O que eu sou hoje é terem vendido a casa,
É terem morrido todos,
É estar eu sobrevivente a mim-mesmo como um fósforo frio..."[...] (Álvaro de Campos)
"Mudam-se os tempos, mudam-se as vontades,
Muda-se o ser, muda-se a confiança;
Todo o mundo é composto de mudança,
Tomando sempre novas qualidades.
Continuamente vemos novidades,
Diferentes em tudo da esperança;
Do mal ficam as mágoas na lembrança,
E do bem, se algum houve, as saudades.
O tempo cobre o chão de verde manto,
Que já coberto foi de neve fria,
E em mim converte em choro o doce canto.
E, afora este mudar-se cada dia,
Outra mudança faz de mor espanto:
Que não se muda já como soía." (Camões)
Antes fossem mudanças em larga escala - das quais continuamos necessitados -, mas estas são de pequeno espectro: família, casa, ano. Tudo bem, absolutas no plano individual, mesmo que pequenas para os outros.
Como somos o universo das nossas impressões, talvez as grandes mudanças individuais tenham algum revelo fora das gentes.
Trago dois portugueses para dizer por mim sobre estes tempos.
"O que eu sou hoje é como a umidade no corredor do fim da casa,
Pondo grelado nas paredes...
O que eu sou hoje (e a casa dos que me amaram treme através das minhas lágrimas),
O que eu sou hoje é terem vendido a casa,
É terem morrido todos,
É estar eu sobrevivente a mim-mesmo como um fósforo frio..."[...] (Álvaro de Campos)
"Mudam-se os tempos, mudam-se as vontades,
Muda-se o ser, muda-se a confiança;
Todo o mundo é composto de mudança,
Tomando sempre novas qualidades.
Continuamente vemos novidades,
Diferentes em tudo da esperança;
Do mal ficam as mágoas na lembrança,
E do bem, se algum houve, as saudades.
O tempo cobre o chão de verde manto,
Que já coberto foi de neve fria,
E em mim converte em choro o doce canto.
E, afora este mudar-se cada dia,
Outra mudança faz de mor espanto:
Que não se muda já como soía." (Camões)
Feb 24, 2010
O Carnaval das Paródias
Já disse o Chico em entrevista: "comecei colocando outras letras nas canções que já existiam".
Antes de saber disso, eu já fazia um bom número de versões de poemas célebres pra treinar o pulso, as palavras que cabem, entender o ritmo dos poetas etc.
Como estou transcrevendo as minhas antigas agendas para o computador, achei uma dessas brincadeiras, dei uma afinada nos versos e envio como prova do que pode aparecer no carnaval das paródias. Muita poesia e humor a todos!
poema de sete fáceis
quando nasci um anjo gordo
desses que chamam diabo
disse vai carlos ser fuck na vida
as casas expiam os homens
que correm das mulheres
a tarde talvez fosse azul
não houvesse tantos enxofres
o Bond passa cheio de pernas
pernas pra quem te quero
pra que tanta perna meu deus pergunta o continuísta
porém o estúdio
não pergunta nada
o homem atrás das suíças
é sério simples e sofre
quase não conversa
tem muitos vários amigos
o homem atrás dos óculos e das suíças
meu eu por que me abandonaste
se sabias que eu não era eu
se sabias que eu era um rato
terra terra vasta terra
se eu me chamasse inglaterra
seria uma rima e seria uma solução
terra terra vasta terra
mais farsa é a minha nação
eu não devia te dizer
mas essa lua
mas esse conhaque
é eu não devia mesmo te dizer
Antes de saber disso, eu já fazia um bom número de versões de poemas célebres pra treinar o pulso, as palavras que cabem, entender o ritmo dos poetas etc.
Como estou transcrevendo as minhas antigas agendas para o computador, achei uma dessas brincadeiras, dei uma afinada nos versos e envio como prova do que pode aparecer no carnaval das paródias. Muita poesia e humor a todos!
poema de sete fáceis
quando nasci um anjo gordo
desses que chamam diabo
disse vai carlos ser fuck na vida
as casas expiam os homens
que correm das mulheres
a tarde talvez fosse azul
não houvesse tantos enxofres
o Bond passa cheio de pernas
pernas pra quem te quero
pra que tanta perna meu deus pergunta o continuísta
porém o estúdio
não pergunta nada
o homem atrás das suíças
é sério simples e sofre
quase não conversa
tem muitos vários amigos
o homem atrás dos óculos e das suíças
meu eu por que me abandonaste
se sabias que eu não era eu
se sabias que eu era um rato
terra terra vasta terra
se eu me chamasse inglaterra
seria uma rima e seria uma solução
terra terra vasta terra
mais farsa é a minha nação
eu não devia te dizer
mas essa lua
mas esse conhaque
é eu não devia mesmo te dizer
Feb 1, 2010
novo livro
Tá chegando um novo livro por aí, zero um, em abril, pela 7 Letras. Nesta semana estive revisando o original, daí me veio aquela vontade de postar um dos poemas aqui.
Como me disse um leitor em que confio muito, e repasso as impressões pra tentar escapar de cabotinimso, em parte são os mesmo procedimento do livro anterior (poemas lançados fora), mas agora mais apurados e, aparentemente, com menos erros. Espero que ele esteja certo!
Chega de defender o réu. Em efeito, às avessas. Todo livro de poemas é culpado até que prove o contrário, ou do contrário (?). Segue um dos poemas, culpabilíssimo!
mancebo
quando me prendem o braço
nos arrabaldes de minas
quando perguntam sempre
da saúde dos menores
mulheres são fotos ovais
de generais na parede
quando a varanda se enche
de tios fumando truco
e gritos chamam os homens
pelas travessas quentes
quando as saias dão cor
ao assoalho de tacos
evangélicas e retas
toldos para os olhos baixos
canso quando conferem
nos ombros nos antebraços
quando disputam comigo
espaços que são das coisas
canso de não ser coisa
os andares de madeira
os moldes preservados
os tabacos de azulejo
o cansaço
talvez haja certo cansaço
reservado a cada coisa
Como me disse um leitor em que confio muito, e repasso as impressões pra tentar escapar de cabotinimso, em parte são os mesmo procedimento do livro anterior (poemas lançados fora), mas agora mais apurados e, aparentemente, com menos erros. Espero que ele esteja certo!
Chega de defender o réu. Em efeito, às avessas. Todo livro de poemas é culpado até que prove o contrário, ou do contrário (?). Segue um dos poemas, culpabilíssimo!
mancebo
quando me prendem o braço
nos arrabaldes de minas
quando perguntam sempre
da saúde dos menores
mulheres são fotos ovais
de generais na parede
quando a varanda se enche
de tios fumando truco
e gritos chamam os homens
pelas travessas quentes
quando as saias dão cor
ao assoalho de tacos
evangélicas e retas
toldos para os olhos baixos
canso quando conferem
nos ombros nos antebraços
quando disputam comigo
espaços que são das coisas
canso de não ser coisa
os andares de madeira
os moldes preservados
os tabacos de azulejo
o cansaço
talvez haja certo cansaço
reservado a cada coisa
Jun 2, 2009
Por um triz

Passei a última semana pensando em desativar este espaço. O ritmo da produção e o vulto que esta e outras obrigações assumiram em minha vida tornaram muito pesado o trabalho de blogueiro, que consiste, não só em postar, mas também em conferir a produção de blogs prediletos, responder às impressões, seguir com as obrigações nos blogs coletivos etc., práticas que faço com muito prazer normalmente, mas que me têm cansado sobremaneira nestes dois últimos meses.
Isso tudo é verdade, mas não toda a verdade. Tenho avançado muito com meus poemas e canções, do ponto de vista técnico e sensível, a despeito do parco amparo daqueles que o deviam amparar (não há como denominar este agente imenso e abrangente de opressão). Por mais que eu tenha reconhecimento de algumas caríssimas pessoas e de outras que admiro muito artisticamente, tenho ficado cada vez mais amargurado com a maioria medíocre em ambas as áreas, que sei não ser nova nem contemporânea e sei ser aparentemente irremediável, a não ser pelo tempo, como em todas as épocas. É preciso deixar claro, especialmente, que não é a veiculação da arte medíocre que mais me incomoda (tudo bem um poeta não muito bom lançar um livro, ou dois, ou cinco ou ainda não termos nenhum compositor maior vivo e jovem com destaque nos últimos tempos), mas é, sobretudo, a teorização acerca do verso e das canções que estes artistas propagam em programas de tv, mesas de debate, eventos literários e afins. Igualmente me incomoda ver alguns colegas bastante talentosos e alijados de espaço, de todo o espaço, até mesmo deste pequeno de onde reclamo. Vale aqui ainda a ressalva de que não recrimino generalizadamente. Considero-me amigo de uma poeta recentemente chamada para um colóquio que com justiça deveria estar em todos os colóquios possíveis.
Também conheço virtualmente um compositor que tem feito muito pela canção e é muito talentoso. O mais comum, entretanto, desola-me imensamente.
Sei que soa arrogante (embora a certeza de que somos todos sacos de carne animados temporariamente, já declarada aqui, me redima um pouco), mas é com muita sinceridade que escrevo estas linhas. Este estar entre – ser saudado por algumas autoridades literárias e cancionísticas, mas não ter espaço para tornar pública minha arte (talvez porque para isso a autoridade seja comercial e não estética) – tem sido realmente muito perigoso pra mim. Não quero também, depois de gênio incompreendido, mobilizar o lugar do coitado, mas tenho tido grande desânimo para tudo e até náuseas físicas quando penso muito nessas questões. Enfim, acho que o espaço razoavelmente público do blog tem sido uma força perniciosa para a minha arte no momento. Esta é atualmente minha segunda parte da verdade.
Detesto dogmas e verdades absolutas, portanto, não o farei eu mesmo, muito menos aqui neste espaço que todos aprendemos a tornar tão querido com estes dois anos. Entretanto, para ter uma vida mais tranqüila pragmática e internamente, para poder recuperar parte da felicidade que já vivi ao terminar uma obra que parece bastante apurada, deixo de viver um pouco neste espaço virtual. Confesso que uma terceira parte da verdade pode ser considerada uma necessidade redescoberta de sair de casa para ver peças, filmes, exposições, visto que não o faço com regularidade nos últimos 15 meses, não o faço quase nunca, na verdade, mas como sou um misantropo reconhecido, não quis colocar isso na conta. Talvez o prólogo de Memórias Póstumas caiba exatamente neste momento, posto que raisonnablement são em torno de cinco os meus leitores mais assíduos. A esses minhas desculpas, aos demais um piparote.
Sendo direto, estou dando tempo neste nos outros espaços em que posto. Certamente erro, por estar certo, assim como antes acertava, quando errava com certeza.
May 24, 2009
bill

Enfim, trago outro poema, nascido direto da observação de um amigo. Chamo de amigo por impropriedade, não somos íntimos, mas tenho grande admiração pela pessoa e seu carinho evidente pelo filho me emocionou bastante. A uma primeira leitura - é raro para mim mostrar poemas antecipadamente -, minha mãe observou: mas não seria "todas as crianças são negras"? Não, não seria. Falo de cores, não de raças. Não acredito em raças diferentes, somos todos da mesma raça! Aliás, as palavras-cores são muito mais leves e precisas do que as palavras-raças. Muita arte e ótima semana a todos.
May 15, 2009
O último quarto

Atendendo à indicação de uma amiga, posto hoje o poema que postei alguns dias atrás no "Poema Dia". Não gosto de repetir nem artigo científico, mas gosto do poema e ela me deu boas razões, que omito. Abraço arteiro e bom fim-de-semana a todos.
caramanchão
assim envelheço
de olhar cansado
pro lado do quarto
que já morreu
até a surpresa
jovem mas frágil
de tão enganada
adoeceu
sem ter o cuidado
amadeirado
minha pele farta
se amarrotou
sem ter para onde
ir meu enfado
transmuto em destino
cá onde estou
e onde me encontro
ausente de filhos
de netos amigos
de namorar
o que vai comigo
se é que a morte
é ir do destino
a algum lugar
reabro as janelas
e a luz senhora
mais velha do mundo
enlouqueceu
movendo o vestido
não mais acorda
a cor que a poeira
adormeceu
são tantas memórias
andando em volta
a casa esquecida
dos meus avós
velórios alpendres
serões e sótãos
tudo que o tempo
despe de voz
agora envelheço
de vez e por fim
não sei a quem devo
cumprimentar
que sinos são esses
que saudades
eu sinto no corpo
imenso do ar
May 12, 2009
May 10, 2009
Poema de viagem
Em Campinas, para tocar com a banda, o tempo passa sempre mais rápido do que eu. Por isso, fico com pouco tempo para trabalhar nos meus escritos. Às vezes passo dias trabalhando versos na cabeça (enquanto faço outras coisas) que só vou escrever em minha volta pra casa, no tempo letárgico do meu quarto. Enquanto isso, ocasionalmente, surgem pequenas lascas-poemas, que compartilho. Boa semana e arte a todos!
devaneio
jamais vou acordado
sigo em sono íntimo e profundo
todo o tempo
se às vezes me perturbam
para falar de algo
com olhos mãos beijos e apontamentos
desperto só o bastante
para agir de modo
que todos se contentem
e durmo
durmo novamente
no chão acolchoado de minha alma
deste sonho
vitalício
percebo que quando se acorda
é tudo muito cortante
e rude
sem as nuances necessárias
para ver que o mundo se esmaece
que as coisas trazem outras coisas
sobrepostas
nos raros momentos lúcidos
de vigília
pergunto-me
se todos vão como eu
se todos dormem
e se da mesma forma
se assustam
quando um rasgo de mundo lhes acorda
devaneio
jamais vou acordado
sigo em sono íntimo e profundo
todo o tempo
se às vezes me perturbam
para falar de algo
com olhos mãos beijos e apontamentos
desperto só o bastante
para agir de modo
que todos se contentem
e durmo
durmo novamente
no chão acolchoado de minha alma
deste sonho
vitalício
percebo que quando se acorda
é tudo muito cortante
e rude
sem as nuances necessárias
para ver que o mundo se esmaece
que as coisas trazem outras coisas
sobrepostas
nos raros momentos lúcidos
de vigília
pergunto-me
se todos vão como eu
se todos dormem
e se da mesma forma
se assustam
quando um rasgo de mundo lhes acorda
May 5, 2009
O ser e o nada
Ando como sempre. Produzindo... produzindo... Não há mais sentido em retirar tudo da alma para pôr num símile de alma que é uma pasta do windows. Estou neste limiar estranho onde se torna difícil delinear as coisas, dar sentido às coisas. Seria menos angustiante ouvir delas mesmas, as coisas, baixinho, a confidência íntima sobre qual o sentido de suas vidas. Mas nada! É tudo um extenso e angustiante silêncio. Salvo uma ou outra nota consonante, o resto não existe. O que realmente me tira o sono, se querem saber, ou se não querem, é que todos vivem, até felizes, nesse resto inexistente, enquanto as notas raramente encontram alma que lhes guarde. Abaixo, o poema que fiz pro quase choro de uma amiga.
Apr 30, 2009
O eterno retorno
Sou um pouco radical quanto à poesia brasileira (lê-se: chato) e tenho me tornado cada vez mais restritivo. Sinceramente não afirmo de boca cheia tal fato, mas com uma tristeza lenta, uma sombra sobre o peito. Hoje o e-mail de um amigo me lembrou que há muito eu havia lhe falado: "mesmo com todas as falhas do Concretismo (e o inevitável desdobramento pra poesia-power-point, acrescento), não podemos esquecer que foram eles que nos alertaram para a materialidade do verso". Eis aí, no guto obsoleto, um começo possível para o contragolpe da minha lassidão romântica sobre o meu purismo crítico. No caminho, que encontre Drummond e João Cabral (alguém carrega a Bandeira?), e que marchem!
Abaixo, um poema.
Abaixo, um poema.
Subscribe to:
Posts (Atom)