Já disse o Chico em entrevista: "comecei colocando outras letras nas canções que já existiam".
Antes de saber disso, eu já fazia um bom número de versões de poemas célebres pra treinar o pulso, as palavras que cabem, entender o ritmo dos poetas etc.
Como estou transcrevendo as minhas antigas agendas para o computador, achei uma dessas brincadeiras, dei uma afinada nos versos e envio como prova do que pode aparecer no carnaval das paródias. Muita poesia e humor a todos!
poema de sete fáceis
quando nasci um anjo gordo
desses que chamam diabo
disse vai carlos ser fuck na vida
as casas expiam os homens
que correm das mulheres
a tarde talvez fosse azul
não houvesse tantos enxofres
o Bond passa cheio de pernas
pernas pra quem te quero
pra que tanta perna meu deus pergunta o continuísta
porém o estúdio
não pergunta nada
o homem atrás das suíças
é sério simples e sofre
quase não conversa
tem muitos vários amigos
o homem atrás dos óculos e das suíças
meu eu por que me abandonaste
se sabias que eu não era eu
se sabias que eu era um rato
terra terra vasta terra
se eu me chamasse inglaterra
seria uma rima e seria uma solução
terra terra vasta terra
mais farsa é a minha nação
eu não devia te dizer
mas essa lua
mas esse conhaque
é eu não devia mesmo te dizer
Feb 24, 2010
Feb 22, 2010
nosso silêncio diário
Terminado o conto (que rapidamente me lembrou dos esforços que faço para escrever prosa), volto em algumas reflexões sobre o silêncio.
Com as férias universitárias, as muitas obrigações em casa e minha mãe em viagem, tenho ficado longos intervalos de tempo em silêncio. Alguns dias sempre, às vezes uma semana, quando não ligam por engano, ou quando não tenho que trocar breves palavras com as funcionárias do supermercado.
Nesses momentos, minha voz vacila como se fosse possível errar e desaprender. Costuma sair baixa, grave, para dentro, e não raro ouço um "ahn?" como resposta. Talvez seja assim sempre. Só não o percebemos porque ficamos pouco sem falar, temos urgência do verbo. A voz, toda vez que se exibe no universo audível, rompe camadas densas de silêncio ao custo da força inteira da alma.
A voz ordinária é ausente de alma, por isso não faz força.
Nesses dias de silêncio, na verdade, tendo a falar comigo. Não alto, refletindo - penso que não preciso falar fora para escutar dentro, esse diálogo eu travo silenciosamente -, mas para sentir o pulso dos meus versos, de todos os textos que escrevo, diariamente.
Imagina a falta de jeito da minha boca, acostumada nos últimos dias a só dizer poesia, quando é solicitada a responder a uma fala de máquina: "tem cartão bom clube?"
Não. A única resposta possível.
Com as férias universitárias, as muitas obrigações em casa e minha mãe em viagem, tenho ficado longos intervalos de tempo em silêncio. Alguns dias sempre, às vezes uma semana, quando não ligam por engano, ou quando não tenho que trocar breves palavras com as funcionárias do supermercado.
Nesses momentos, minha voz vacila como se fosse possível errar e desaprender. Costuma sair baixa, grave, para dentro, e não raro ouço um "ahn?" como resposta. Talvez seja assim sempre. Só não o percebemos porque ficamos pouco sem falar, temos urgência do verbo. A voz, toda vez que se exibe no universo audível, rompe camadas densas de silêncio ao custo da força inteira da alma.
A voz ordinária é ausente de alma, por isso não faz força.
Nesses dias de silêncio, na verdade, tendo a falar comigo. Não alto, refletindo - penso que não preciso falar fora para escutar dentro, esse diálogo eu travo silenciosamente -, mas para sentir o pulso dos meus versos, de todos os textos que escrevo, diariamente.
Imagina a falta de jeito da minha boca, acostumada nos últimos dias a só dizer poesia, quando é solicitada a responder a uma fala de máquina: "tem cartão bom clube?"
Não. A única resposta possível.
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