Estou trabalhando num novo tipo de poética que contorna um pouco a particularidade do poema, por isso não tenho trazido tantos versos a este espaço. Vez ou outra, contudo, me aparecem alguns poemas antigos - antigos para mim, claro, novidade é necessidade da coisa, não da palavra - e é sempre bom voltar à velha forma de versar, conduzir o verbo por versos e estrofes. Segue um poema.(Como é bom poder dizer isso saindo do turbilhão que é para mim aquele outro jeito de escrever.)
ocaso
beijar-te os lábios
pele sempre nua
como luvas
saber que a palma
quando reclusa
é noturna
mas em vôo aberto
faz-te inquieta
ou segura
medir tuas pernas
pelos palmos
sol
saber o ângulo
exato
em que te acalmo
e o outro
que te nasce
por detrás da casa
para pôr-te depois
e além
saber-te as entradas
janelas e portas
falhas
entre as tábuas
onde guardas
a chave
do prazer
ter-te plena
para perder
muito
constantemente
até ver
de novo
teus lábios
aparentemente
ilesos
rebuscar
um jeito justo
de sofrer
Mar 10, 2010
Mar 3, 2010
Tempos de mudança
As ausências, aqui e no Trombone, estão bem justificadas. São tempos de mudança.
Antes fossem mudanças em larga escala - das quais continuamos necessitados -, mas estas são de pequeno espectro: família, casa, ano. Tudo bem, absolutas no plano individual, mesmo que pequenas para os outros.
Como somos o universo das nossas impressões, talvez as grandes mudanças individuais tenham algum revelo fora das gentes.
Trago dois portugueses para dizer por mim sobre estes tempos.
"O que eu sou hoje é como a umidade no corredor do fim da casa,
Pondo grelado nas paredes...
O que eu sou hoje (e a casa dos que me amaram treme através das minhas lágrimas),
O que eu sou hoje é terem vendido a casa,
É terem morrido todos,
É estar eu sobrevivente a mim-mesmo como um fósforo frio..."[...] (Álvaro de Campos)
"Mudam-se os tempos, mudam-se as vontades,
Muda-se o ser, muda-se a confiança;
Todo o mundo é composto de mudança,
Tomando sempre novas qualidades.
Continuamente vemos novidades,
Diferentes em tudo da esperança;
Do mal ficam as mágoas na lembrança,
E do bem, se algum houve, as saudades.
O tempo cobre o chão de verde manto,
Que já coberto foi de neve fria,
E em mim converte em choro o doce canto.
E, afora este mudar-se cada dia,
Outra mudança faz de mor espanto:
Que não se muda já como soía." (Camões)
Antes fossem mudanças em larga escala - das quais continuamos necessitados -, mas estas são de pequeno espectro: família, casa, ano. Tudo bem, absolutas no plano individual, mesmo que pequenas para os outros.
Como somos o universo das nossas impressões, talvez as grandes mudanças individuais tenham algum revelo fora das gentes.
Trago dois portugueses para dizer por mim sobre estes tempos.
"O que eu sou hoje é como a umidade no corredor do fim da casa,
Pondo grelado nas paredes...
O que eu sou hoje (e a casa dos que me amaram treme através das minhas lágrimas),
O que eu sou hoje é terem vendido a casa,
É terem morrido todos,
É estar eu sobrevivente a mim-mesmo como um fósforo frio..."[...] (Álvaro de Campos)
"Mudam-se os tempos, mudam-se as vontades,
Muda-se o ser, muda-se a confiança;
Todo o mundo é composto de mudança,
Tomando sempre novas qualidades.
Continuamente vemos novidades,
Diferentes em tudo da esperança;
Do mal ficam as mágoas na lembrança,
E do bem, se algum houve, as saudades.
O tempo cobre o chão de verde manto,
Que já coberto foi de neve fria,
E em mim converte em choro o doce canto.
E, afora este mudar-se cada dia,
Outra mudança faz de mor espanto:
Que não se muda já como soía." (Camões)
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