Sep 24, 2008

De volta aos poucos

Salve, caríssimos, que saudades de todos! Acabo de chegar novamente em Porto Alegre depois de uma longuíssima viagem e, como esperado, cheio de afazeres urgentes, mestrado, prova da especialização, roteiros etc., mas, desta vez, não tenho nada o que reclamar dos meus tempos ausentes. Conheci alguns atores imensos (dentre eles, destaco Renato Broghi e Cacá Amaral), com os quais consegui conversar um bocado, escrevi um roteiro para um novo amigo, encontrei dezenas de queridos, conheci lugares, enfim uma cansativa viagem para retomar as energias e relembrar algumas certezas: definitivamente tenho que fazer arte! O Borghi, por exemplo, tem cinquenta e dois anos de teatro. Conversamos por uns quarenta minutos sobre Nelson Rodrigues, palco, arte dramática etc. e eu ficava pensando "como sou pequeno! como sou pequeno!", mas não no mau sentido, mas algo como, "cresça mais meu querido, tua vida te espera", mesmo que termine logo, já. Isso é arte e viver. Talvez.

Hoje deixo o endereço do site de um amigo com quem estou fazendo um projeto de foto mais poemas. Gostei muito das quatro primeiras fotos dele neste trabalho que promete... Volto aos poucos, aos poucos posto os muitos poemas, canções etc. da viagem! Arte e vida a todos!
http://www.fotolog.com/oldmanphotos

Sep 12, 2008

As damas da noite

Nunca fui a uma casa de prostituição! Soa ridículo, eu sei, até às avessas, neste tempo pós rock, um suposto artista afirmar isso de maneira tão categórica. Talvez até me recriminem de não ter me esbaldado em minha juventude, mas nunca lidei bem com a idéia de comunhão lúbrica e objetal das mulheres. Nunca achei razoável tratar mulher ou homem como produto, então nada mais esperado do que esta repulsa às casas de amor comum.

Talvez devesse mudar de idéia. Estou realmente muito cansado de tudo. Salvo raríssimas pessoas (uso a ressalva para eventuais interpelações de leitores, ao que responderei "não, não, você era uma daquelas pessoas da ressalva"), os demais me tratam da mesma forma com que me recuso a tratar as funcionárias do meretrício. Por extensão à arte, que deve entreter, faço o mesmo. A superfície do meu lirismo toca a face, cora as pessoas, elas se alegram, tudo muito fácil; mas os sentidos menos evidentes e temporários permanecem intocáveis porque não encantam, não amenizam as pessoas do fardo de suas consciências. Sou exatamente como aquele profissional que acaba de atender a uma dama do Itaim, infeliz com o marido, e que mostrou todo o glamour em seu serviço. Contudo, descerá a pé, com certeza sozinho, pelo caminho mais curto e barato rumo a um bairro distante ou a um próximo trabalho.

Vende-se minha moral anacrônica para poder dormir com putas!

as damas da noite

as damas da noite são biscoitos
do forno das flores
ditam pelo cheiro
a abstenção de sentidos

um tempo depois do fogo
das cores ao alto das hastes
da laje feita de pedra
por um azul macio

imersos no esquecimento
de seu pólen de baunilha
deixamos nossos desejos
no máximo alcance dos braços

viver ínfimos na memória
de um tempo que construímos
arrancá-lo de onde se mostra
ou se esconde para agora

é o jardim amadeirado
a falsa promessa do aroma
morrer que seja nas flores
ainda quentes da gula