Motivado pelos comentários da última postagem, surgiram hipóteses sobre algo que me assombrava há algum tempo. Embora majoritariamente eu componha poemas e músicas em tom adulto, diversas vezes surge como proposta um tom infantil ou bufão nos meus versos. Este estigma infantilizante, principalmente depois de ler alguma coisa de psicanálise, sempre foi uma questão orbitante nas minhas preocupações. Será a opção de um lirismo pessoal em forjar determinado tom? Uma opção estética confrontadora, do tipo, "eis as relações aí no lúdico, não vê? Bom, acho que não me fiz entender. É realmente difícil explicitar este ponto da minha produção. Vou postar, então, alguns exemplos e qualquer luz sobre o assunto é absolutamente bem-vinda!
H
No princípio, todas as palavras vinham com agá
Antes.
Certo dia, por não se saberem úteis,
Resolveram deixar a empresa.
Como sempre há fura-greves
E dedos-duros (embora estes não se encaixem na contenda,
o que em nada impede posarem de figurantes)
Ficou o agá de hoje, de há, de halo,
De hipogrifo.
Dinorah, faceira que só ela,
Ora tem, ora não tem
O pensado,
Mas não dito.
Se bem que,
No caso de Dinorah,
O agá não é de princípio.
O sacrifício das pombinhas
as pombas tadinhas
são tão sujismundas
que até quando comem
erguem famintas a bunda
O maior arranjo do mundo
Quando não tinha mais nada o que fazer, tomou todas as flores do mundo
e deu a ela. Certo que não lhe cabiam nos abraços cada begônia, lys,
bromélia, rosa, todas as outras vis. Ela soube ganhar o presente.
Retribuiu com beijo breve de mil gametas, fecundado, leve.
Este floresceu no peito infértil do jovem a tarde inteira
e só a noite pôde acalmar o unímpeto da semente.
No dia seguinte, logo de manhã, foi somente
esperando marcar a data que entrariam
no primeiro concurso. Só ela tinha
flores, afinal. Mas encontrou,
no mesmo arranjo: beijo,
outro homem, ela; e
desfez-se baixo,
muito baixo
como a
péta-
la.
Ferrorama
os trilhos que puxam a locomotiva
May 4, 2008
May 2, 2008
Quanto mais, menos
Ando cético! Extremamente cético! Quanto mais produzo e estudo, mais me desloco. Não há razão para parar de fazê-lo, por isso agravo minha condição de estranho. Não tenho aceitado elogios, pois me agridem. Todo carinho, mesmo verbal, é suspeito. O tempo é uma fila extensa de indelicadezas. O mundo, um amontoado de tudo que é áspero e cortante. Meu verbo, na ânsia do abismo, despeja-se nos arquivos e microfones, mas rejeita o diálogo. Meus olhos são constantemente oblíquos e arredios. Quanto mais me sinto senhor da desorganizada unidade do meu ser, mais meus braços se alongam, mantendo a distância. O fim do processo é morrer semente, não, pólen, ainda mais mínimo. A teleologia, portanto, é necessariamente exógena!
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